Economistas analisam impacto da guerra no petróleo e medidas do governo Lula
A escalada das tensões internacionais no Oriente Médio coloca novamente o petróleo no centro das preocupações econômicas do Brasil, com reflexos diretos na inflação e nos preços dos combustíveis. Para especialistas consultados, a ligação entre o conflito e os custos domésticos é inevitável, e tentativas de amortecer os impactos podem criar distorções perigosas no mercado.
Pressão internacional chega rapidamente ao Brasil
Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset Brasil, é enfática ao afirmar que "quem determina esses preços de fato é o mercado internacional de commodities". Segundo ela, qualquer pressão sobre o petróleo no exterior se traduz rapidamente em aumento de custos dentro do país, mesmo quando há esforços governamentais para conter essa transferência.
A economista destaca que existem limites claros para essas estratégias de contenção. "Tem alguns preços que não vão ser possíveis da Petrobras e do governo segurarem", alerta, acrescentando que a consequência inevitável aparece nos índices inflacionários.
Efeito dominó na economia brasileira
Marianna Costa exemplifica como o encarecimento do petróleo desencadeia uma cadeia de aumentos:
- Setor aéreo: Passagens mais caras reduzem a demanda por voos
- Transporte terrestre: Diesel mais caro encarece o frete de caminhões
- Alimentos e produtos básicos: Custos logísticos elevados pressionam preços ao consumidor
"Esse movimento é muito ruim para a economia", resume a economista, destacando como a redução do consumo afeta negativamente a atividade econômica como um todo.
Decisões políticas versus realidade de mercado
Frederico Zornig, CEO da Quantiz Pricing Solutions, avalia que a política de preços da Petrobras adiciona uma camada extra de incerteza ao cenário já turbulento. "A decisão hoje é muito mais política do que de mercado", afirma, referindo-se às escolhas da estatal que consideram não apenas o preço internacional, mas também aspectos internos e políticos.
Zornig cita como exemplo o reajuste de 55% no querosene de aviação, que "certamente está influenciado pelo impacto que a gente está tendo no custo do petróleo".
Riscos de desabastecimento e distorções
O executivo alerta para um perigo concreto: a possibilidade de desabastecimento quando preços não refletem a realidade do mercado internacional. "Se você não tem o incentivo de trazer um produto... isso pode gerar falta do produto, como a gente observou com o diesel", explica.
Zornig é categórico ao afirmar que "não tem almoço grátis" nessa equação complexa. Segundo ele, quando o governo tenta represar preços, como no caso do GLP (gás de cozinha), a conta simplesmente é transferida para outros setores ou para a sociedade como um todo.
Posicionamento político em meio à crise
No campo político, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou tom firme ao comentar o impacto da guerra nos combustíveis. Sobre o leilão do gás de cozinha, classificou como "cretinice e bandidagem que fizeram com o povo", garantindo que "o povo pobre não pagará em hipótese alguma o preço dessa guerra".
Em relação ao diesel e à gasolina, o presidente reforçou: "Nós não vamos aumentar o óleo diesel para o caminhoneiro. Não vamos aumentar a gasolina se nós ainda não temos necessidade disso".
Cenário internacional permanece tenso
Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elevou a retórica ao falar do conflito no Oriente Médio. Ao mencionar o estratégico Estreito de Ormuz, por onde passa grande parte do petróleo mundial, Trump afirmou ter "derrotado e desarmado completamente o Irã".
O líder americano ainda sugeriu que outros países "comprem petróleo dos Estados Unidos da América", garantindo que "temos bastante". Segundo suas previsões, quando o conflito terminar, os preços da gasolina voltarão a níveis mais estáveis.
Até que esse cenário se concretize, o mercado internacional de petróleo e, por consequência, a economia brasileira, permanecem em compasso de espera, tentando medir a extensão real da turbulência causada pela guerra e seus reflexos nos preços dos combustíveis e na inflação doméstica.



