Mito do café ruim no Brasil é desmentido: qualidade interna evoluiu desde os anos 80
Mito do café ruim no Brasil é desmentido: qualidade evoluiu

Mito do café ruim no Brasil é desmentido: qualidade interna evoluiu desde os anos 80

Quem nunca ouviu falar que o café bom produzido no Brasil é exportado, enquanto o ruim fica para o consumo interno? Essa ideia, no entanto, não reflete a realidade atual. Segundo Sérgio Parreiras, pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), essa história pode ter sido verdade no passado, mas está definitivamente ultrapassada.

O passado problemático dos anos 80

Parreiras se refere aos anos de 1980, quando o governo controlava pouco a qualidade do café, abrindo espaço para inúmeras fraudes, como a mistura de cevada e milho aos grãos. Naquela época, o governo também fixava preços para controlar a inflação, o que desestimulava o mercado a buscar qualidade. Independentemente do café colocado na embalagem, fosse de baixa ou altíssima qualidade, o preço final seria o mesmo, lembra o pesquisador. Isso levou os produtores a direcionarem os melhores grãos para outros países, que pagavam mais do que o governo brasileiro.

Em 1989, por exemplo, 30% do volume total de café comercializado no Brasil era fraudado, conforme pesquisa da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic). Hoje, esse percentual é menor que 1%, segundo a entidade.

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A virada com o Selo de Pureza da Abic

A história começou a mudar em 1989, quando o governo transferiu para a Abic a responsabilidade de fiscalizar o mercado. Preocupada com a queda do consumo de café no país entre os anos 60 e 80, devido à baixa qualidade, a Abic lançou o Selo de Pureza. As indústrias em conformidade passaram a receber a certificação, exigindo que os pacotes fossem feitos com 100% grãos de café.

O ator Tarcísio Meira protagonizou propagandas da associação, dizendo: Por trás desse selo, só tem café. As peças publicitárias, veiculadas até em novelas como Tieta em 1990, ajudaram a construir uma imagem positiva do café brasileiro.

Regulamentação governamental e avanços recentes

Em 2022, o Ministério da Agricultura estabeleceu um padrão de qualidade para o café torrado, proibindo que os pacotes tenham mais de 1% de impurezas e matérias estranhas. Essas regras, em vigor desde 2023, deram respaldo às fiscalizações, como as operações que apreenderam marcas de café fake.

Com o fim da intervenção estatal nos preços e o avanço da fiscalização, produtores brasileiros começaram a investir mais na qualidade. Em 1991, foi fundada a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), que produz cafés com grãos 100% maduros e sem defeitos. Embora esse tipo de café seja mais exportado, o consumo interno cresceu: de 1% em 2015 para 15% atualmente.

Como era o mercado nos anos 80

Até os anos 80, a produção de café no Brasil tinha pouco foco em qualidade. O Instituto Brasileiro do Café (IBC), responsável pelas políticas públicas, controlava apenas preço e volume. Uma lei de 1978 já estabelecia um limite de tolerância de até 1% de impurezas, mas a fiscalização era ineficiente.

O tabelamento de preços e a formação de estoques de café, muitas vezes vendidos no mercado interno após longos períodos de armazenagem, contribuíam para a má qualidade. Isso fez o consumo per capita cair de 4,8 kg por ano em 1965 para 2,27 kg em 1989.

Controle de qualidade atual

O selo da Abic foi aprimorado ao longo dos anos. Atualmente, as indústrias precisam passar por quatro etapas de análise para obter a certificação:

  • Microscópica: avalia a pureza do café, certificando a ausência de ingredientes adicionados.
  • Sensorial: especialistas provam os cafés às cegas para verificar qualidade e classificação.
  • Auditoria de boas práticas: técnicos visitam fabricantes para avaliar higiene e qualidade.
  • Monitoramento na gôndola: amostras são coletadas em mercados sem aviso prévio para garantir padrões.

Em 2023, o governo federal voltou a regulamentar o mercado com a portaria 570, que estabelece regras detalhadas para a composição do café torrado. O controle iniciado há 36 anos incentivou os agricultores a investirem mais na qualidade, abrindo espaço para cafés premiados mundialmente.

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Portanto, a ideia de que só o café ruim fica no Brasil é um mito. Com evolução na fiscalização e investimentos em qualidade, o consumidor brasileiro hoje tem acesso a produtos de alto padrão, tanto no mercado interno quanto no exterior.