No início dos anos 1990, quando as primeiras confecções se instalaram em Juruaia, o produto era um só: a lingerie feminina básica, feita em pequena escala e vendida para quem aparecia na porta da fábrica. Três décadas depois, o polo mineiro produz de tudo o que cabe no universo da moda íntima, do pijama ao biquíni, da linha fitness ao plus size, da lingerie básica à linha erótica com pedras semipreciosas. A diversificação não foi planejada num escritório, aconteceu porque as empresárias de Juruaia foram ouvindo o mercado e respondendo a ele, coleção após coleção.
O grande foco da cidade ainda é a produção de calcinhas e sutiãs
Com cerca de 70% do total, a lingerie ainda domina, mas também há empresas ligadas às modas praia, fitness e sleepwear, que juntas rendem um faturamento bruto mensal superior a R$ 15 milhões. Esse equilíbrio entre especialização e diversidade é um dos segredos do polo, e garante vendas em qualquer época do ano, não só nas datas comemorativas.
Quando o pijama entrou em cena
A expansão para além da lingerie começou de forma natural, impulsionada pela demanda dos próprios compradores que visitavam a cidade. O pijama foi uma das primeiras grandes apostas de diversificação e ganhou força especialmente durante a pandemia de 2020, quando o homewear se tornou uma das categorias mais procuradas do varejo de moda em todo o Brasil, com peças que combinavam conforto para o trabalho em casa com versatilidade para o dia a dia. As confecções de Juruaia responderam rápido a esse movimento, incorporando o segmento às suas grades e conquistando um público que antes não fazia parte do radar do polo.
Cuecas, moda praia e fitness: cada segmento com sua história
A moda masculina também encontrou seu espaço em Juruaia, com confecções apostando em cuecas que vão do básico ao sofisticado, inclusive com criações que viraram caso de imprensa, como a cueca com GPS, que exemplifica bem a criatividade das empresárias locais quando o assunto é inovar. A moda praia e o fitness chegaram como extensão natural das marcas que já produziam lingerie, aproveitando o conhecimento em tecidos elásticos, modelagem ajustada e acabamento de qualidade. Marcas como a Ouseuse, que começou produzindo apenas calcinhas e sutiãs em 1994, ampliaram de forma natural seu mix de produtos e hoje oferecem lingerie nas versões básica, fashion e ousada, além das linhas praia e moda esportiva. Esse movimento se repetiu em dezenas de confecções ao longo dos anos.
Plus size e linhas sensuais: a inclusão como estratégia
Dois segmentos que cresceram de forma expressiva no polo nos últimos anos são o plus size e as linhas mais sensuais e eróticas. No primeiro caso, a demanda veio de um mercado que o varejo tradicional demorou a atender com qualidade, e algumas empresárias de Juruaia enxergaram a oportunidade antes de todo mundo. É o caso de Solange, fundadora da Brilho de Mulher, uma das pioneiras do segmento no polo. "Percebi essa demanda quando comecei a observar que muitas mulheres encontravam dificuldade em achar peças bonitas, modernas e confortáveis no tamanho delas. O mercado oferecia poucas opções e, na maioria das vezes, sem preocupação com autoestima, sensualidade ou tendência", conta ela, que criou a marca para atender do tamanho 42 ao 60, do slim ao plus size, nas linhas de moda íntima, praia e fitness.
O caminho não foi simples. Segundo Solange, desenvolver modelagens adequadas para esse público exigiu estudo profundo sobre diferentes biotipos, pesquisa em tecidos, elasticidade, acabamento e caimento. "Entendemos desde o início que não bastava apenas aumentar medidas, era preciso desenvolver peças pensadas para o corpo da mulher real", explica. No começo, havia resistência do mercado, com muitas marcas céticas sobre o potencial comercial do segmento. "Enquanto algumas tinham receio de investir, nós enxergávamos mulheres que queriam consumir moda e se sentir representadas", lembra. Hoje, o cenário mudou. "O crescimento é enorme e muito importante. Existe mais visibilidade, mais diálogo sobre diversidade e mais mulheres entendendo que podem ocupar qualquer espaço, inclusive na moda", afirma Solange, que acompanha essa transformação desde o início e tem orgulho de ter ajudado a abrir esse caminho no polo de Juruaia.
Nas linhas mais sensuais, a criatividade das empresárias de Juruaia também não tem limites. Uma das confecções da cidade chegou a apresentar numa feira um conjunto avaliado em R$ 25 mil, com ouro e turmalina, além de ter vendido uma cueca por R$ 7 mil, exemplos que mostram o quanto o polo é capaz de atender desde o produto popular até o nicho mais exclusivo do mercado.
Um polo que se reinventa sem perder a essência
A diversificação de Juruaia não foi uma fuga da lingerie, foi uma expansão a partir dela. O conhecimento acumulado em décadas de produção de moda íntima, os tecidos, as máquinas e a mão de obra especializada serviram de base para que o polo avançasse sobre novos segmentos sem perder qualidade nem identidade. A empresária Geralda Joelma Reis, proprietária da Nuance Lingerie, começou há mais de 14 anos confeccionando apenas calcinhas, logo diversificou a produção e hoje conta com 56 funcionários produzindo peças com materiais sofisticados como o modal, feito da mistura do algodão com resíduos de bambu.
Essa trajetória de expansão contínua é o que faz Juruaia diferente. O polo não parou no que sabia fazer, foi além, sempre acompanhando o que o mercado pedia e o que as mulheres queriam usar. São hoje 400 CNPJs ativos no setor, produzindo cerca de 25 milhões de peças por ano, num polo que começou com uma única máquina de costura e não parou mais de crescer.



