Agricultor encontra possível poço de petróleo ao perfurar solo em busca de água no Ceará
Agricultor acha possível petróleo ao buscar água no Ceará

Busca por água no sertão cearense revela possível descoberta de petróleo em propriedade rural

Em uma reviravolta inesperada no interior do Ceará, um agricultor que buscava solucionar a crise hídrica em sua propriedade pode ter encontrado algo muito diferente: um possível poço de petróleo. O caso ocorreu em Tabuleiro do Norte, município localizado a aproximadamente 210 quilômetros de Fortaleza, onde Sidrônio Moreira perfurava o solo em novembro de 2024 com o objetivo de construir um poço artesiano.

Do sonho da água à surpresa do óleo escuro

"O que a gente queria era água, né? O que a gente queria era solucionar o problema da água lá", afirmou ao g1 Saullo Moreira, filho do agricultor e gerente de vendas, resumindo a ironia da situação. A família, que vive em uma residência sem água encanada a cerca de 35 quilômetros da sede municipal, dependia de carregamentos de carro-pipa para abastecimento durante boa parte do ano.

Para mudar essa realidade, Sidrônio tomou um empréstimo em 2024 especificamente para furar o solo e garantir uma fonte própria de água. No entanto, ao atingir cerca de 40 metros de profundidade, emergiu um líquido escuro que inicialmente foi celebrado como água, mas logo se revelou algo bem diferente. "No vídeo, meu pai até comemora porque ele pensava que era água. E acabou que, depois que o perfurador parou, não saiu nada [de água]", relatou Saullo.

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ANP notifica família e inicia investigação oficial

Após a revelação do caso, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) notificou formalmente a família na última terça-feira (3 de março) e informou que enviará uma equipe técnica ao local para análises mais aprofundadas. Enquanto aguarda a visita dos especialistas, a família permanece em um cenário de incerteza quanto ao abastecimento hídrico.

Testes laboratoriais preliminares realizados pelo Instituto Federal do Ceará (IFCE) de Tabuleiro do Norte e pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em Mossoró (Rio Grande do Norte), indicaram que o líquido apresenta características físico-químicas semelhantes ao petróleo encontrado em jazidas da região vizinha. No entanto, apenas um laboratório credenciado pela ANP poderá fornecer uma confirmação oficial.

Riqueza do subsolo pertence à União

Mesmo que a presença de petróleo seja confirmada, o agricultor não terá direito à comercialização do combustível. De acordo com a legislação brasileira, as riquezas encontradas no subsolo são propriedade da União. "Hoje, eu queria que, se fosse petróleo, a gente resolvesse o mais rápido possível pra ele ter essa forma de renda extra", expressou Saullo, demonstrando a esperança da família em transformar a descoberta em benefício prático para melhorar suas condições de vida.

A família foi alertada sobre os riscos ambientais envolvidos: caso um poço seja perfurado incorretamente, o óleo poderia vazar para o lençol freático e contaminar as fontes de água da região, gerando sérios problemas ecológicos. Por isso, aguardam orientações tanto da ANP quanto das autoridades ambientais sobre como proceder.

Contexto geográfico e desafios logísticos

Tabuleiro do Norte está situado na divisa com o Rio Grande do Norte, integrando a região do Vale do Jaguaribe. A localidade fica próxima à Bacia Potiguar, área tradicional de exploração petrolífera entre Ceará e Rio Grande do Norte. Embora o município não esteja inserido em nenhum bloco de exploração oficial, o local da possível descoberta está a apenas 11 quilômetros do bloco mais próximo.

A propriedade da família recebe água intermitentemente de uma adutora de Tabuleiro do Norte, mas o abastecimento é insuficiente para cobrir um mês inteiro. "A adutora, às vezes, demora muito a chegar água e acaba que não dá para passar o mês. Quando não dá para passar o mês, tem que 'comprar' carro-pipa", explicou Saullo, detalhando a rotina de escassez que motivou a perfuração original.

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Próximos passos e incertezas

As análises realizadas até o momento confirmaram que o líquido é um tipo de hidrocarboneto com densidade, viscosidade, cor e cheiro similares ao petróleo da região. Contudo, isso não configura confirmação oficial de uma jazida economicamente viável. A ANP precisará avaliar múltiplos fatores:

  • Composição química precisa do material encontrado
  • Condições do subsolo na propriedade
  • Dimensões exatas do possível poço
  • Quantidade e qualidade do recurso disponível

Após eventual confirmação e delimitação, a agência dividiria a região em blocos de exploração para leilão a empresas interessadas. No entanto, muitas áreas mapeadas não atraem investidores devido a desafios como tamanho reduzido da jazida, dificuldades de extração, custos operacionais elevados ou baixa qualidade do petróleo que exigiria refinamento complexo.

"Eu tinha vontade que eles viessem aqui ver isso aí e continuassem, para ver se dava alguma coisa. Qualquer coisa que desse aí servia para a gente, porque é uma calamidade muito grande de água aqui", declarou o agricultor Sidrônio Moreira sobre a esperada visita da ANP, sintetizando o paradoxo entre a possível riqueza mineral e a carência hídrica que continua afetando sua família e propriedade.