Governo atribui crise bilionária da Raízen a aposta eleitoral em Bolsonaro
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva apontou uma aposta eleitoral mal-sucedida como a origem da crise financeira que atinge a Raízen, gigante nacional dos setores de açúcar, etanol e distribuição de combustíveis. A empresa, controlada pelos grupos Ometto e Shell, recebeu recentemente um aval judicial para renegociar uma dívida colossal de R$ 65 bilhões com seus credores, equivalente a aproximadamente 12,5 bilhões de dólares.
Ministro detalha versão do governo sobre origem dos problemas
Em audiência na Câmara dos Deputados, o ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira, apresentou a versão oficial do governo sobre as causas da crise. Segundo ele, os acionistas da Raízen teriam vinculado seus projetos de expansão à expectativa da reeleição do então presidente Jair Bolsonaro em 2022.
"A Raízen aceitou pagar 5 bilhões de reais em investimentos na Vale, na expectativa de se tornar controladora daquela empresa, porque acreditava na reeleição do governo anterior, e estava no direito dela", afirmou Silveira. "Deu errado, Lula derrotou Bolsonaro. Tomou prejuízo".
O ministro citou ainda outro compromisso financeiro oneroso: "A Raízen também aceitou pagar 4 bilhões de reais por aquela medida de desoneração de combustível. Veja, 4 bilhões de reais, só a Raízen. Custou 15 bilhões de reais para o setor de etanol para fazer dentro da eleição".
Governo planeja resgate apesar de críticas à gestão
Mesmo atribuindo a crise a decisões empresariais arriscadas, o governo federal anunciou planos para socorrer a empresa. "Nós temos que socorrê-la, é uma empresa importante para o país. Mas foram opções empresariais, os números das perdas financeiras são objetivos", declarou o ministro.
Esta posição foi defendida durante uma audiência tensa na Câmara, onde o deputado Danilo Forte, do União Brasil, criticou duramente a atuação do governo no combate ao crime organizado no setor de combustíveis. "Omissão houve, ministro, em relação ao combate ao crime organizado no Brasil; e o setor de combustíveis está pagando um preço muito alto", afirmou o parlamentar.
Forte, autor do primeiro projeto de lei para tipificar como terrorismo os crimes de organizações como PCC e Comando Vermelho, lamentou a situação: "É triste ver uma empresa do tamanho da Raízen, com o significado e a sua história, pagando essa conta. Essa insegurança do setor de combustíveis foi o que ocasionou, inclusive, a saída de empresas multinacionais renomadas do mercado brasileiro".
Contexto empresarial e político da Raízen
A Raízen surgiu em 2011 da união estratégica entre o grupo Ometto e a Shell no Brasil, com cada parte detendo 44% do capital. A empresa opera uma extensa rede de oito mil postos Shell em território nacional e mantém filiais em diversos países, incluindo Argentina, Estados Unidos, França, Alemanha e Indonésia.
Embora o ministro Silveira tenha atribuído a crise a uma aposta eleitoral específica, não há evidências concretas que comprovem essa versão. Curiosamente, Rubens Ometto, principal executivo da Raízen, figurou entre os maiores financiadores de campanhas em 2022, com doações registradas tanto para Jair Bolsonaro quanto para Lula, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral.
Após a vitória de Lula, Ometto foi integrado ao Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, conhecido popularmente como Conselhão, demonstrando a complexidade das relações entre o empresariado e o poder político no Brasil.
A crise da Raízen expõe as interseções delicadas entre decisões corporativas, expectativas políticas e a realidade econômica, enquanto o governo busca equilibrar a necessidade de socorrer uma empresa estratégica com a responsabilidade de combater o crime organizado que assola o setor de combustíveis.
