Chocolate segue caro na Páscoa: preços altos persistem apesar da queda do cacau no campo
Chocolate caro na Páscoa: preços altos apesar da queda do cacau

Chocolate segue caro na Páscoa: preços altos persistem apesar da queda do cacau no campo

Os brasileiros vão enfrentar mais um ano de preços elevados ao comprar chocolate para a Páscoa. Na prévia da inflação de fevereiro, o chocolate em barra e o bombom acumulam alta de 26% em 12 meses, segundo dados do IBGE. No campo, as cotações do cacau já estão em queda, mas as amêndoas utilizadas pela indústria na produção dos ovos de Páscoa foram adquiridas quando os preços ainda batiam recordes no mercado internacional, conforme explica o analista da StoneX, Lucca Bezzon.

Medida do governo e impacto nos preços

Nesta semana, o governo brasileiro decidiu suspender temporariamente a importação de cacau da Costa do Marfim, principal fornecedor do Brasil e maior produtor mundial. No entanto, segundo Bezzon, essa medida não deve provocar escassez de amêndoas nem pressionar os preços no Brasil, principalmente porque a demanda da indústria por cacau está enfraquecida. Além disso, o mercado brasileiro é abastecido majoritariamente pela produção nacional, recorrendo à importação de forma sazonal, especialmente no início do ano, durante a entressafra.

"E, no caso de o Brasil precisar de cacau, pode recorrer ao Equador, que está com uma grande safra", afirma Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, justificou a suspensão alegando riscos de introdução de pragas e doenças, devido à possibilidade de mistura de grãos de países não autorizados, como Libéria e Guiné, nos lotes da Costa do Marfim.

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Por que o chocolate ainda está caro e quando vai baixar?

O preço do cacau pago ao agricultor começou a cair no campo no ano passado, mas essa redução ainda não chegou ao consumidor. Bezzon explica que isso ocorre porque a indústria trabalha com compras antecipadas da matéria-prima. "As fabricantes de chocolate compram a manteiga e o pó de cacau das moageiras com uma antecedência de 6 a 12 meses", diz o analista. Para a produção dos chocolates desta Páscoa, a indústria chegou a pagar entre US$ 6 mil e US$ 10 mil por tonelada pelos subprodutos do cacau, valor que hoje já caiu para cerca de US$ 3 mil.

Enquanto o produtor recebe menos pelo cacau e o consumidor paga mais pelo chocolate, a indústria tem aproveitado esse momento para aumentar seus lucros. "A indústria de chocolate passou por anos de margens apertadas devido ao déficit global de cacau e, agora, está priorizando a recuperação de suas margens de lucro antes de repassar qualquer redução ao consumidor", afirma Carlos Cogo. Segundo ele, a queda de preço no supermercado deve acontecer a partir do segundo semestre deste ano. Bezzon compartilha uma visão semelhante, prevendo uma normalização gradual ao longo do ano se os preços se mantiverem baixos.

O que motivou a disparada de preços?

O preço alto do chocolate nas prateleiras ainda é resultado de uma forte diminuição da colheita de cacau que ocorreu no Brasil e nos principais produtores africanos, como Costa do Marfim e Gana, em 2024. Esses países sofreram com o fenômeno El Niño, que provocou secas e excesso de chuvas no momento errado, além de pragas e doenças. A indústria brasileira conta principalmente com as amêndoas nacionais, mas recorre aos países africanos para suprir parte da demanda.

"Sem essas duas fontes de fornecimento, os preços domésticos subiram até mais rápido do que os preços internacionais em 2024", destaca Bezzon. "As regiões de maior poder aquisitivo, como a Europa e os Estados Unidos, competiram pelo pouco cacau africano disponível, agravando a escassez para outros mercados." Em janeiro de 2025, o preço do cacau chegou a US$ 10 mil por tonelada na Bolsa de Nova York, enquanto um ano antes girava em torno de US$ 4 mil.

Por que o preço do cacau caiu no campo?

Os preços do cacau começaram a cair para o produtor no ano passado, principalmente após julho, impulsionados por uma recuperação das colheitas no Brasil e em países africanos, conforme explica Carlos Cogo. "Além disso, o volume de importação começou a crescer com a queda do dólar", acrescenta. No entanto, Bezzon tem uma visão diferente: para ele, a queda de preços no Brasil se deve mais à falta de demanda do que a uma recuperação da produção.

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"A alta excessiva do preço do cacau gerou uma mudança estrutural nas fórmulas dos chocolates: as indústrias reduziram o tamanho das barras e substituíram a manteiga de cacau por outras gorduras e óleos", afirma Bezzon. "Como as indústrias de confeitaria diminuíram a compra de subprodutos, as moageiras também reduziram as compras de amêndoas, fazendo os preços no Brasil despencarem." Na Bahia, por exemplo, os agricultores estão recebendo em média R$ 200 pela arroba do cacau, valor 70% abaixo do registrado há um ano, situação que tem gerado protestos, como o bloqueio da BR-101 em Ibirapitanga.

Em 2025, a produção brasileira de cacau alcançou 186.137 toneladas, enquanto as importações chegaram a 42.199 toneladas, com 81% originárias da Costa do Marfim. A suspensão das importações é vista por alguns como uma resposta à pressão do setor produtivo para conter a queda dos preços domésticos, mas especialistas destacam que, atualmente, há excesso de cacau na Costa do Marfim, que também enfrenta dificuldades para escoar sua produção.