O álbum póstumo "Mano", lançado em 22 de maio, reúne oito faixas que conectam Erasmo Carlos (1941-2022) a rappers como Budah, Criolo, Dexter, Emicida, Marcelo D2, Rael, Tasha & Tracie, Tássia Reis e Xamã. O projeto, idealizado pelo filho do cantor, Léo Esteves, e organizado por Marcus Preto, busca fazer a obra de Erasmo circular em novas galáxias do universo pop, especialmente no hip hop brasileiro.
Primeira impressão enganosa
A faixa de abertura, "É preciso dar um jeito, meu amigo", com participação de Emicida, decepciona. A música original de 1971, amplificada pelo filme Ainda estou aqui (2024), praticamente desaparece sob um discurso potente de Emicida sobre base dos Tropkillaz. A gravação original é reduzida a fragmentos, como o riff de guitarra inicial.
Colaborações que brilham
Felizmente, o álbum ganha força com outras parcerias. Budah se destaca em "Cachaça mecãnica / Queimando tudo", samba-rock de 1973. Ela canta trechos originais e depois amplifica a angústia do protagonista João com seu rap, criando uma simbiose perfeita, considerada o ponto alto do disco.
Dexter comenta "Mundo cão" (1972) em "Quem é herói ou vilão?", usando o refrão de Silvio Brito. A faixa dialoga sem anular Erasmo, ao contrário da abertura.
Em "Sábado morto" (1972), a voz de Erasmo nos primeiros dois minutos sobre base de Pupillo dá lugar ao rap de Xamã, que cita a fama de "mau" do Tremendão. A faixa evolui com mais coesão que "Sorriso dela", onde Rael se junta a ecos da música negra americana.
Rappers femininas e veteranos
A dupla Tasha & Tracie rima sobre batidas suaves em "O tempo é amigo e inimigo", dialogando com "Grilos" (1972). Já Marcelo D2 atualiza "Maria Joana" (1971) com reggae, pregando libertação em "Pra que as trevas destravem".
O álbum encerra com "Gente aberta / Imensamente visceral", reunindo Erasmo, Criolo e Tássia Reis. Criolo canta em dueto com Erasmo, enquanto Tássia Reis entra com rap. A pulsação do trompete de Edy Trombone contribui para a atmosfera sedutora.
Saldo positivo
Apesar do início fraco, "Mano" se revela um disco coeso e inovador, com saldo positivo. As minas do rap mandam bem, e a interação entre gerações e gêneros se concretiza. A primeira impressão nem sempre é a que fica.



