
Imagine mais de cem toneladas de tomates vermelhos e maduros voando pelo ar, transformando as ruas de uma cidade histórica num gigantesco caldeirão de purê. Pois é exatamente isso que acontece todo último miércoles de agosto em Buñol, na Espanha. Mas o que pra muitos parece uma tradição divertida—quase uma terapia coletiva—está gerando um debate ácido.
E não é por pouco. Numa época em que o mundo discute segurança alimentar e sustentabilidade, jogar comida fora virou—com todo o direito—um assunto espinhoso. Os números são de deixar qualquer um de queixo caído: só neste ano, foram 130 toneladas de tomates utilizadas numa batalha que dura… pasme… apenas uma hora.
Os Argumentos que Pegam (e os que Escorregam)
De um lado, os defensores do festival—e são muitos—argumentam que os tomates usados não são próprios para consumo. São especificamente cultivados para o evento, mais baratos e, francamente, já estariam indo para o lixo mesmo. "É cultura pura!", gritam os entusiastas. "Uma válvula de escape, uma loucura controlada que atrai turistas do mundo inteiro." E de fato atrai: gente de todos os cantos do planeta paga para entrar na brincadeira.
Mas do outro lado a coisa fica séria. Críticos apontam o dedo e questionam: num mundo onde milhões passam fome, normalizar o desperdício de comida—ainda que com tomates "inviáveis"—é realmente aceitável? É uma mensagem que ecoa mal, muito mal. A imagem de alimentos sendo destruídos em massa, mesmo que simbolicamente, causa um mal-estar que vai muito além do cheiro ácido do tomate apodrecendo no sol.
O Outro Lado da Moeda: Economia vs. Ética
Buñol, uma cidade que normalmente vive tranquila, se transforma durante o evento. Hotéis lotados, restaurantes com filas, comércio local aquecido—o festival é, inegavelmente, uma mina de ouro turística. Gera emprego, renda e coloca o nome da cidade no mapa mundial. Quem vive lá sabe: sem La Tomatina, Buñol seria apenas mais um ponto no mapa da Espanha.
Mas será que o fim justifica os meios? Essa é a pergunta que ronda o debate. É possível equilibrar tradição, economia e responsabilidade social? Alguns especialistas em sustentabilidade sugerem que o festival poderia, quem sabe, encontrar formas de compensar o desperdício—doando para compostagem ou até mesmo revertendo parte dos lucros para programas de combate à fome.
No fim das contas, a polêmica da La Tomatina escancara um conflito muito maior: até onde podemos ir em nome da tradição? O que vale mais: preservar uma festa única ou adaptá-la aos valores do nosso tempo? A resposta, como um tomate bem maduro, está longe de ser preto no branco.