Manifesto cultural: escolas de samba de Rio Preto resistem à paralisação dos desfiles
O apelo de Alcione em "Não deixe o samba morrer" ecoa com força entre os carnavalescos de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Há quase uma década, as agremiações locais enfrentam a ameaça constante do fim dos desfiles, que não acontecem oficialmente desde 2018. A atração mais tradicional do carnaval de rua da cidade, que brilhou até os anos 2000, está paralisada, e seus integrantes apontam a falta de apoio financeiro da prefeitura como principal motivo.
Falta de verba e mudanças administrativas
Segundo Vicente Roberto Serroni, jornalista e responsável pela escola Império do Sol, o último desfile ocorreu em 2018. "Logo depois veio a pandemia e, quando os eventos voltaram, já não tínhamos mais apoio do poder público", relembra. A mudança na gestão do carnaval, transferida da Secretaria de Cultura para a Secretaria de Desenvolvimento e Turismo, dificultou ainda mais o repasse de verbas. "Essa secretaria tem pouco orçamento. O secretário até tentou buscar apoio com empresários, mas não conseguiu", explica Serroni.
A situação se manteve nas gestões de Edinho Araújo (MDB) e Fábio Cândido (PL). "Conversamos com o atual governo, fizemos três reuniões, mas a resposta foi a mesma: não tem dinheiro para os desfiles", lamenta o carnavalesco. Sem apoio público, as escolas tentam mobilizar a iniciativa privada. A Império do Sol aprovou um projeto na Lei Rouanet no valor de R$ 998 mil, mas ainda não conseguiu captar os recursos. "Temos até o final do ano para definir isso, mas é muito difícil esse tipo de trabalho, as empresas locais e da região não demonstraram interesse", comenta Vicente.
Frustração e abandono do poder público
Nelson Ghirotto Junior, de 69 anos, diretor financeiro da Liga das Escolas de Samba e da escola Unidos da Boa Vista, também expressa sua decepção. "Sem apoio financeiro não tem como fazer ensaios. Quando recebemos verba para os desfiles ela é aplicada integralmente no desfile. Sentimos total frustração e abandono do poder público", desabafa. A indignação aumenta porque a legislação federal reconhece as escolas de samba como manifestações da cultura nacional e atribui ao poder público a responsabilidade de garantir as atividades.
A Lei 14.577, de 4 de maio de 2023, estabelece claramente que compete ao poder público garantir as atividades das escolas de samba e seus desfiles, por se tratar de cultura nacional. No entanto, na prática, essa determinação não tem sido cumprida em Rio Preto.
Investimentos em blocos versus escolas de samba
Enquanto as escolas de samba enfrentam dificuldades, o perfil do folião em Rio Preto mudou, com preferência por grandes shows e pelos 23 blocos carnavalescos que recebem apoio da prefeitura e de vereadores através de emendas. A prefeitura informou que em 2026 investiu R$ 6 milhões no CarnaVirou, além do montante destinado aos blocos, com o objetivo de trazer receita e movimentar a economia local.
Serroni questiona essa distribuição de recursos: "se há verba para os blocos, por que não há para as escolas? As escolas têm o seu público, como os blocos têm o deles". Ele destaca que os desfiles sempre tiveram grande público, majoritariamente familiar, e sem incidentes de violência. "As arquibancadas lotavam e já chegamos a reunir 45 mil pessoas em 1996", recorda.
Reinvenção e esperança de retorno
Enquanto planejam o retorno, as escolas têm se reinventado para sobreviver. A Império do Sol se tornou Ponto de Cultura e oferece oficinas durante todo o ano, além de realizar intercâmbio com a Estação Primeira de Mangueira, do Rio de Janeiro. "Criamos o Bloco Ala Show Império do Sol, que participa do carnaval desde 2020", conta Serroni.
A prefeitura afirma que está acordada com as escolas a retomada dos desfiles a partir do ano que vem. As agremiações Unidos da Boa Vista (última campeã), Império do Sol, Acadêmicos de Rio Preto e Imperatriz lideram esse movimento. Antes da paralisação, a avenida contava também com Tigre Dourado, Gaviões do Samba e Pérola Negra.
Os carnavalescos mantêm viva a esperança de que o samba não morra em Rio Preto, mas reconhecem que sem apoio financeiro consistente, a tradição que já reuniu milhares de pessoas pode ficar apenas na memória.
