Rosana Paulino: a filha de faxineira que se tornou artista global e representa o Brasil em Veneza
Rosana Paulino: arte afro-brasileira em Veneza

Rosana Paulino: da periferia de São Paulo ao topo da arte mundial

Rosana Paulino, filha de uma faxineira e um pintor de paredes, tornou-se uma das artistas plásticas mais reconhecidas do Brasil e do mundo. No último Dia da Consciência Negra, ela esteve no Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR) não apenas como artista consagrada, mas como curadora de uma série de minidocumentários sobre 20 artistas negros brasileiros. "Isso não é uma onda passageira. São artistas muito bem formados, com produções fortes e bem fundamentadas que simplesmente não eram conhecidos", afirmou Paulino. "Estamos dentro de um momento histórico."

Trajetória de superação e reconhecimento

A paulistana de 59 anos é referência na arte brasileira e representa o país na 61ª Bienal Internacional de Veneza, ao lado de Adriana Varejão. No MAR, ela estava à vontade como decana da arte afro-brasileira. "Trabalhei praticamente dez anos sozinha quando comecei", conta, lembrando a ausência de artistas negros na cena contemporânea nos anos 1990. "Agora, a proliferação de artistas, críticos e curadores afro-brasileiros é um panorama que eu não esperava ver em vida."

Paulino acumula feitos recentes: exposições individuais em Buenos Aires, Bruxelas e Nova York, onde instalou um painel de nove metros na High Line; obras adquiridas pela Tate Modern e pelo MoMA; prêmios como o Munch Award (2024) e o Jane Lombard de Arte e Justiça Social. Para ela, ignorar a produção negra e indígena é uma "sandice". "O Brasil é um país que não olha para si mesmo. A entrada de negros e negras no panorama é salutar."

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Comigo Ninguém Pode: a mostra em Veneza

Na Bienal de Veneza, Paulino divide o pavilhão brasileiro com Adriana Varejão, em uma edição composta apenas por mulheres, com curadoria de Diane Lima. O título da mostra, "Comigo Ninguém Pode", vem de uma obra da série Senhora das Plantas, que retrata mulheres em metamorfose com plantas de poder. "É uma oportunidade de discutir a formação do país de maneira sofisticada", diz Paulino. A exposição aborda proteção, resiliência e sobrevivência em contextos hostis.

Esta não é a primeira vez de Paulino em Veneza: em 2022, participou da mostra principal. "A curiosidade estrangeira veio antes de o Brasil entender o quão gigante é sua produção", afirma Igor Simões, cocurador de sua exposição no Malba. "Tê-la no pavilhão faz crer que o país esteja interessado em olhar para si mesmo."

Arte que entrelaça biologia e ancestralidade

Paulino nasceu na Freguesia do Ó, Zona Norte de São Paulo, onde a mãe criava galinhas e bordava para complementar a renda. Desde cedo, mostrou interesse por biologia e arte. Passou em biologia na Unicamp e em artes visuais na USP, optando pela segunda. Seu doutorado na USP e a especialização em gravura em Londres uniram os dois campos. "Uma coisa que poderia ser um empecilho, a falta de dinheiro, a minha mãe transformou em motor para criatividade", lembra.

Em suas obras, Paulino desconstrói teorias racistas da pseudociência. "O racismo científico foi pouco estudado, mas é fundamental para entender a desumanização do corpo negro", afirma. Sua arte reflete sobre a posição da mulher negra, ancestralidade e as marcas do colonialismo.

Papel de mentora e compromisso com a comunidade

Paulino é conhecida por abrir portas para outros artistas negros. "Rosana nunca se contentou em ser a única negra da sala. Fez de sua trajetória uma porta aberta", diz Igor Simões. Ela é chamada carinhosamente de "dinda" por muitos. Apesar do reconhecimento internacional, ela recusou convites para sair do Brasil. "Não acredito em fazer dinheiro e sair do país", afirma. Seu ateliê fica em Pirituba, onde planeja transformar o espaço em um centro de pesquisas para jovens artistas, com biblioteca especializada em arte afro-brasileira e diáspora. "Tenho que ter uma ação comunitária além da produção de arte, senão minha vida não teria sentido."

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