Daniela Mercury rebate decisão judicial e questiona organização do carnaval de Salvador
A cantora Daniela Mercury manifestou insatisfação com a decisão judicial que suspendeu a determinação para que seu bloco Crocodilo fosse o primeiro a desfilar no circuito Dodô (Barra/Ondina) durante o domingo de carnaval. Em entrevista coletiva realizada antes do desfile, a artista criticou a gestão do evento e defendeu a história de três décadas de seu bloco no tradicional circuito da capital baiana.
Questionamentos sobre critérios e respeito à história
Daniela Mercury afirmou que a forma como o circuito é organizado atualmente não é respeitosa e fere a história da consolidação do percurso na folia de Salvador. A cantora relembrou que em 1996 havia uma hierarquia rigorosa na ordem dos trios, o que a impediu de conseguir espaço para desfilar no circuito naquela época.
"A gente tem uma história linda, muito clara, toda noticiada, documentada. A única que ficou de lá até aqui desfilando, 30 anos, apesar de tudo, fui eu! Então, por que a turma está antes de mim? Não consigo entender. De onde surgiram?", questionou a artista durante a coletiva.
Daniela contou que, devido às dificuldades iniciais, decidiu procurar um novo espaço entre Barra e Ondina, desfilando por volta das 19h no início do carnaval. Segundo ela, vinha sinalizando para a gestão que a ordem dos trios não estava satisfatória, mas não recebeu respostas adequadas.
Empresária defende critérios claros e reconhecimento histórico
Malu Verçosa, esposa e empresária de Daniela Mercury, também participou da coletiva e comentou a decisão judicial. Ela afirmou que entrar com uma medida judicial foi o último recurso disponível e destacou que o bloco Crocodilo vem sendo gradualmente empurrado para o fim da fila ao longo dos anos.
"Cada ano a gente é empurrado para mais tarde, então qual é o critério? Se não é a antiguidade, não é a presença no circuito, qual é? A gente tem que definir o critério, tem que ter um órgão regulador", argumentou Verçosa.
A empresária ressaltou que a questão envolve também retorno financeiro e de mídia, e que existem interesses diversos em jogo. No entanto, ela deixou claro que o objetivo não é criar uma estrutura inflexível, mas sim garantir reconhecimento adequado.
"A gente é de boa, se quiser conversar. 'Ah, o Olodum quer sair primeiro', tudo bem, 'Ivete tem compromisso', não tem problema. Mas, há de se reconhecer o direito e o lugar do bloco Crocodilo que está há 30 anos desfilando neste circuito", afirmou Malu Verçosa.
Decisão judicial e reações
O Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) concedeu efeito suspensivo ao recurso que determinava que o Bloco Crocodilo voltasse a ser o primeiro a desfilar no Circuito Barra-Ondina. Com a decisão, foi restabelecida a programação oficial previamente definida.
O desembargador responsável entendeu que não há comprovação inequívoca de direito automático à primeira posição no desfile. A decisão considerou ainda que eventual mudança às vésperas do evento poderia gerar impactos relevantes na logística operacional, nos contratos firmados, na segurança pública e na organização geral da festa.
Inicialmente, a Justiça havia considerado que o bloco, por se apresentar de maneira ininterrupta há quase três décadas, teria garantida preferência na ordem de saída. O juiz entendera que havia direito à manutenção da ordem tradicional de desfile com base no critério de antiguidade, previsto no regulamento do Carnaval.
Posicionamento do Olodum
Em nota oficial, o Olodum informou que a decisão judicial foi recebida como uma vitória institucional. Para o presidente da banda, Jorginho Rodrigues, a mudança representa o reconhecimento da importância do bloco para o carnaval de Salvador.
"Abrir a avenida é uma responsabilidade grande. O Olodum construiu uma trajetória que dialoga com a história do Carnaval e com a luta do povo negro. Recebemos essa decisão com respeito e com o compromisso de fazer um desfile à altura do que o público espera", afirmou Rodrigues.
Já o presidente Marcelo Gentil destacou o significado simbólico da conquista: "Essa posição reforça o papel do Olodum na cultura brasileira. Vamos celebrar com organização, com música e com a força da nossa percussão".
O g1 entrou em contato com o Conselho Municipal do Carnaval (Comcar) para entender como funciona a organização dos blocos no circuito, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.



