Carnaval além dos grandes centros: tradições únicas do Pará e Pernambuco
Enquanto as grandes cidades brasileiras concentram os holofotes do carnaval, uma folia igualmente vibrante e profundamente enraizada pulsa no interior do país. Nas margens dos rios amazônicos, na zona da mata e no árido sertão pernambucano, manifestações culturais únicas mantêm vivas tradições que misturam história, consciência ecológica e identidade regional. Este carnaval alternativo, menos conhecido nacionalmente, é um tesouro da diversidade cultural brasileira.
As celebrações paraenses: lama, fauna e mascarados
No estado do Pará, três tradições carnavalescas se destacam pela originalidade e significado cultural. Em Curuçá, município com cerca de 35 mil habitantes onde mais da metade do território é composta por manguezais, o bloco Pretinhos do Mangue transforma a paisagem natural em celebração. Na segunda-feira de carnaval, milhares de foliões se cobrem com lama do manguezal e desfilam pelas ruas ao som de música e percussão.
O ritual começou em 1989 como forma de protesto de dois brincantes que não encontraram caranguejos no mangue. Hoje, reconhecido como patrimônio cultural do Pará, o bloco percorre a avenida Sete de Setembro carregando mensagens de conscientização ambiental e homenagens aos povos indígenas, reforçando a identidade ecológica da região.
Em Cametá, na vila do Juaba, a fauna amazônica ganha vida no Cordão da Bicharada. Criado em 1975 por mestre Zenóbio Ferreira, o bloco surgiu da vontade de fazer um carnaval diferente, com fantasias de animais da floresta para aproximar as pessoas da natureza. Num contexto marcado pelos impactos da construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, a "bicharada" — onças, macacos, pássaros e outros animais — passou a levar a mensagem da preservação ambiental às ruas.
Quase 50 anos depois, mestre Zenóbio guarda um acervo com mais de 80 personagens, fotografias e canções compostas ao longo da história do cordão. O desfile oficial acontece geralmente na sexta-feira de carnaval, quando os bichos circulam pelo Juaba, embarcam com a banda e atravessam o rio Tocantins para animar o centro de Cametá, integrando o chamado Carnaval das Águas.
Já em Óbidos, o carnaval acontece entre sábado e terça-feira e é marcado pelos tradicionais bailes chamados "fobós" e pelos mascarados que ocupam as ruas do centro histórico. A festa, conhecida como Carnapauxis, é patrimônio cultural do Pará e carrega traços da tradição portuguesa, principalmente nas máscaras e alegorias.
O símbolo maior é o Mascarado Fobó: foliões vestem um macacão colorido e folgado chamado "dominó", usam máscaras de papelão feitas por artesãos locais, capacetes de cartolina com tiras coloridas, além de bexiga de boi, apito e pó. Valdir Marinho de Matos, o "Valdir das Máscaras", foi um dos principais responsáveis pela confecção das máscaras e pelo fortalecimento de blocos tradicionais antes de falecer em 2020, aos 98 anos, deixando como legado a imagem mais reconhecida do carnaval obidense.
As tradições pernambucanas: caretas e maracatu rural
No sertão de Pernambuco, especificamente no município de Triunfo, localizado no Sertão do Pajeú a mais de mil metros de altitude, quem domina a folia são os caretas. A cidade mantém uma tradição carnavalesca que atravessa mais de um século, com os primeiros registros fotográficos datando de 1912.
Os caretas surgiram oficialmente em 1917, quando um mascarado chamado Mateus, integrante de um grupo de reisado, foi expulso após uma confusão durante festejos natalinos. Ele saiu sozinho pelas ladeiras e voltou no carnaval seguinte, dando origem ao personagem. Com chicotes nas mãos — confeccionados pelo artesão cego Arnaldo Antônio, conhecido como Mestre Quadrado — os caretas percorrem as ruas da cidade com fantasias coloridas e máscaras características.
Na zona da mata pernambucana, entre engenhos de cana-de-açúcar, surgiu o maracatu rural — também chamado de maracatu de baque solto — entre os séculos XIX e XX. Criado por trabalhadores rurais, o cortejo incorporou ao longo do tempo elementos das culturas africanas, indígenas e europeias, criando uma manifestação cultural única.
Durante o carnaval, grupos desfilam principalmente entre domingo e terça-feira em municípios como Nazaré da Mata e Aliança. Os caboclos de lança, com suas fantasias exuberantes, lanças coloridas e bordados brilhantes, são o símbolo da manifestação, acompanhados pelo ritmo intenso de ganzás e alfaias. Entre os grupos mais antigos está o Cambinda Brasileira, fundado em 1918 no Engenho Cumbe, em Nazaré da Mata, considerado o maracatu rural mais antigo em atividade ininterrupta no Brasil e reconhecido como Patrimônio Vivo de Pernambuco.
A importância cultural das tradições carnavalescas regionais
Estas manifestações carnavalescas do interior do Pará e Pernambuco representam muito mais que simples festejos. Elas são expressões vivas da identidade cultural de suas regiões, transmitindo valores, histórias e saberes de geração em geração. Do manguezal ao sertão, da floresta aos engenhos, cada tradição carrega em si elementos que refletem a relação das comunidades com seu ambiente natural e seu contexto histórico.
Ao contrário do carnaval massificado dos grandes centros urbanos, estas celebrações mantêm um caráter comunitário e ritualístico, onde a participação não é apenas diversão, mas também afirmação cultural. O reconhecimento de várias destas manifestações como patrimônio cultural — seja em nível estadual ou como Patrimônio Vivo — atesta sua importância para a preservação da diversidade cultural brasileira.
Em um país de dimensões continentais como o Brasil, onde a cultura muitas vezes é reduzida aos estereótipos veiculados pela mídia de massa, estas tradições carnavalescas regionais nos lembram da riqueza e complexidade da identidade nacional. Elas demonstram que o carnaval brasileiro é, na verdade, um mosaico de celebrações diversas, cada uma com sua própria história, estética e significado.