Do Entrudo à Periferia: A Transformação do Carnaval de Campinas Através dos Séculos
Carnaval de Campinas: Da Elite às Periferias em Séculos de História

Do Entrudo à Periferia: A Transformação do Carnaval de Campinas Através dos Séculos

Uma festa que atravessou séculos, mudou de formato e segue se reinventando constantemente. Das celebrações exclusivas da elite aos blocos descentralizados nas regiões periféricas, o Carnaval de Campinas, no interior de São Paulo, funciona como um espelho das transformações sociais, políticas e culturais da metrópole. Esta reportagem especial traça uma linha do tempo detalhada sobre a trajetória da folia campineira desde suas origens no século XIX até sua expansão contemporânea.

Até 1850: Uma Festa Exclusiva das Elites

Até meados do século XIX, o carnaval em Campinas seguia rigorosamente o padrão brasileiro da época, sendo uma celebração típica e restrita às classes mais abastadas. A festa ficava confinada ao reduto das grandes famílias tradicionais, enquanto os grupos sociais mais pobres aproveitavam o período para ganhar uma renda extra através da confecção artesanal de bolinhas de água. Em entrevista histórica, a jornalista Thalita Gallucci, coautora do livro "Pra tudo se acabar em Carnaval", explicou que o carnaval era essencialmente uma reunião de rapazes brancos que saíam às ruas para atirar esses objetos, em uma prática conhecida como Entrudo.

1907: Proibição e a Adoção do Modelo Europeu

No alvorecer do século XX, a elite campineira, com forte apoio da imprensa local, iniciou uma campanha vigorosa para acabar com o Carnaval de rua, considerado grosseiro. Em 1907, o secretário de Segurança Pública decretou a proibição oficial dessas festas populares. O modelo considerado "carnaval de verdade" passou então a ser o europeu, inspirado no estilo veneziano, caracterizado por bailes luxuosos realizados no teatro municipal e em clubes fechados da cidade.

Décadas de 1940 a 1960: O Auge dos Blocos de Rua

Nas décadas seguintes, houve um renascimento e fortalecimento significativo dos blocos de rua. Um dos mais emblemáticos e conhecidos foi o "Nem Sangue Nem Areia", criado na década de 1940 e que celebrou impressionantes 80 anos de existência em 2026. Entre as décadas de 1950 e 1960, este bloco chegou a percorrer um trajeto monumental de 20 quilômetros, partindo da Vila Industrial até o Bonfim, com passagem pelo Centro da cidade. Este período marcou o auge dos blocos, que coexistiam com os tradicionais carnavais de clube.

Anos 1950: O Surgimento das Escolas de Samba

A partir dos anos 1950, começaram a surgir em Campinas as primeiras escolas de samba, que adotavam e seguiam fielmente o modelo consagrado no Rio de Janeiro. A organização dos desfiles ficou a cargo do coronel Rodolpho Petená. Mesmo sem contar com verbas públicas significativas, os carnavalescos locais buscavam inspiração direta na folia carioca. Na década de 1960, mesmo com o Carnaval sendo vetado desde 1964 após o Golpe Militar, os prefeitos da época davam apoio ao modelo das escolas de samba, visto pelas autoridades como mais fácil de controlar e fiscalizar do que os blocos espontâneos de rua. Entre as agremiações que marcaram história estão a Acadêmicos do Ubirajara e a Estrela d’Alva.

2016: Crise Financeira e Cancelamento Oficial

Em dezembro de 2015, a administração municipal confirmou oficialmente o cancelamento do Carnaval de rua de 2016 devido a graves problemas financeiros. Segundo o então secretário de Cultura, Ney Carrasco, o custo estimado para a realização do evento seria de R$ 1,3 milhão. Com essa decisão drástica, não houve desfile das escolas de samba, nem trios elétricos ou quaisquer apresentações artísticas promovidas diretamente pelo município naquele ano. A prefeitura manteve apenas um apoio básico com estrutura de banheiros químicos e serviços de segurança para os blocos organizados de forma independente pela população.

Pós-Pandemia: A Expansão para as Periferias

Tradicionalmente concentrados em bairros e distritos como Barão Geraldo, Sousas, Joaquim Egídio e no Centro, os blocos carnavalescos começaram uma notável expansão por outras regiões da cidade nos últimos anos, especialmente nas áreas periféricas, impulsionados pelo período pós-pandemia da Covid-19. Em 2025, o número de bairros e distritos com blocos registrados subiu para 26, contra 22 no ano anterior. O total de eventos passou de 50 para 60. Regiões como São Bernardo, Novo Campos Elíseos, Vila União, Vila Georgina, CarnaDIC e Satélite Íris I passaram a integrar definitivamente o circuito carnavalesco municipal. Apesar de Barão Geraldo, Sousas, Joaquim Egídio e Centro ainda concentrarem aproximadamente metade das festas, essa proporção vem diminuindo consistentemente nos últimos anos. Segundo o diretor de Cultura, Gabriel Rapassi, o Carnaval de Campinas está se tornando "cada vez mais diurno e descentralizado", o que fortalece diretamente a cultura e a identidade local das comunidades.