Bloco Bacalhau do Batata mantém tradição carnavalesca em Olinda na Quarta-feira de Cinzas
"Ó, quarta-feira ingrata, chega tão depressa só pra contrariar". O verso que embala as despedidas da Quarta-feira de Cinzas, celebrada em 18 de fevereiro, ganha um significado especial nas ladeiras de Olinda, onde o carnaval resiste até o último acorde de frevo. Duas tradições se encontram nesse cenário: o Mungunzá de Zuza Miranda e Thaís, e o Bloco do Bacalhau do Batata, que juntos proporcionam um encerramento festivo para a folia pernambucana.
Distribuição de mungunzá e encontro de tradições
Nas primeiras horas da manhã, foliões se concentraram em frente à Catedral da Sé São Salvador do Mundo, no bairro do Carmo, para a distribuição do mungunzá. O evento foi animado por uma orquestra de frevo, passistas e bonecos gigantes, criando uma atmosfera única. O caldo doce, feito de leite de coco com milho, é um alimento forte e tradicional nas casas dos pernambucanos, servindo para recobrar as energias perdidas após uma semana intensa de folia.
O carnavalesco e músico Zuza Miranda explicou a origem dessa tradição: "Ela começou há 31 anos, quando me pediram para esticar meu show de carnaval até o amanhecer da quarta-feira. Em 1995, eu trouxe mungunzá para distribuir aos foliões que esperavam pelo Bacalhau do Batata e virou tradição. O Mungunzá de Zuza Miranda e Thaís, e o Bacalhau são complementares". A distribuição simboliza a passagem dos foliões para o bloco, unindo duas práticas culturais significativas.
História e significado do Bacalhau do Batata
Criado em 1962 pelo garçom Isaías Pereira da Silva, conhecido como Batata, o bloco surgiu com o propósito de garantir folia para aqueles que trabalhavam durante os dias oficiais de carnaval. Desde então, o Bacalhau do Batata transformou a Quarta-feira de Cinzas em uma extensão genuína da festa, mantendo viva uma tradição que já dura mais de seis décadas.
O desfile do bloco é marcado por elementos únicos, como um estandarte feito com ingredientes reais, incluindo peixe, legumes, verduras e temperos. Um boneco gigante que representa o fundador do bloco abre caminho pelas ladeiras, acompanhado por outras alegorias, como a da cantora Liniker, enriquecendo o visual da celebração.
Fátima Araújo, presidente do Bacalhau do Batata há 17 anos, destacou o sentimento de continuidade: "É um legado maravilhoso. Sempre conto com os foliões e com grandes amigos que fazem esse carnaval acontecer". Sua liderança ajuda a preservar a essência do bloco, garantindo que a tradição seja transmitida para as novas gerações.
Experiências e emoções dos foliões
A aposentada Maria José Soares, moradora de Casa Amarela, na Zona Norte do Recife, mantém o ritual da Quarta de Cinzas há duas décadas. "Saio de casa às 7h para não perder o munguzá nem o bacalhau", contou. Ela sempre vem acompanhada do marido, Luiz Abreu, servidor público, que define o dia como o verdadeiro fechamento do carnaval: "É tranquilidade, alegria e tradição".
Para a trabalhadora autônoma Vilma Gonçalves, que acompanha o bloco há mais de 20 anos, a festa só termina depois do Bacalhau. "Eu não perco por nada. E esse ano ainda está mais especial, porque, pela primeira vez, vim viver esse dia mágico com minha filha", afirmou. Sua filha, Rebeca Gonçalves, servidora pública, acordou cedo para viver a experiência pela primeira vez: "Foi o primeiro dia que vim curtir Olinda em 2026. Eu amei! Pretendo vir mais vezes com a minha mãe".
A professora Ana Paula da Silva, também estreante no bloco, resumiu a experiência: "O carnaval de Olinda é mágico, criativo e diverso". Suas palavras refletem o encanto que a tradição do Bacalhau do Batata continua a exercer sobre os participantes, unindo passado e presente em uma celebração vibrante.
O Bloco Bacalhau do Batata, com sua rica história e a fusão com o Mungunzá de Zuza Miranda e Thaís, demonstra como as tradições carnavalescas de Pernambuco se renovam e se fortalecem, oferecendo um encerramento memorável para a folia. A resistência do carnaval nas ladeiras de Olinda, até a Quarta-feira de Cinzas, é um testemunho da vitalidade cultural da região, atraindo foliões de todas as idades em busca de alegria e conexão com suas raízes.



