Livro 'Enquanto Você Está Aqui' enfrenta silêncio cultural sobre a morte com abordagem íntima e investigativa
A morte permanece como um dos maiores tabus na cultura ocidental, frequentemente evitada em conversas familiares e tratada com um silêncio constrangedor que a mantém à margem até que se torne inevitável. É contra essa lógica estabelecida que a jornalista e escritora Camila Appel constrói sua obra "Enquanto Você Está Aqui", publicada pela editora Fósforo, que surge de uma urgência profundamente pessoal.
Uma necessidade íntima que se expande para reflexão social
A obra nasce do desejo da autora de conversar com sua mãe, a renomada dramaturga Leilah Assumpção, sobre temas delicados como envelhecimento, doença e despedida. A partir dessa necessidade individual, o livro se expande para uma investigação abrangente sobre como a sociedade contemporânea lida com o fim da vida em seus múltiplos aspectos.
O tema não é novo na trajetória de Camila Appel. Desde 2014, quando criou o blog Morte sem Tabu na Folha de S.Paulo, a jornalista vem reunindo relatos, entrevistas e reflexões sobre finitude. O livro representa o resultado de mais de uma década de escuta atenta e pesquisa meticulosa, combinadas com experiência pessoal, conferindo à narrativa um tom único que transita entre ensaio, reportagem jornalística e memória autobiográfica.
Pergunta central que desafia convenções sociais
A questão que guia toda a obra é direta e intencionalmente desconfortável: por que evitamos falar sobre a morte justamente com quem mais amamos, enquanto ainda há tempo para essas conversas? Ao longo das páginas, Appel busca respostas por caminhos diversos e muitas vezes inesperados.
A autora realiza uma investigação minuciosa que inclui:
- Visitas a necrotérios e acompanhamento de necropsias
- Descrições detalhadas do funcionamento de cemitérios verticais
- Entrevistas com médicos de diferentes especialidades
- Conversas com ativistas da ortotanásia
- Diálogos com profissionais do setor funerário
- Relatos de pacientes em cuidados paliativos
Retrato da dureza institucional e possibilidades de dignidade
O resultado dessa investigação multifacetada é um retrato complexo que evidencia tanto a dureza institucional do sistema de saúde quanto a possibilidade real de sensibilidade e dignidade no processo de morrer. Um dos momentos mais marcantes do livro é o relato emocionante da morte do sogro da autora, internado em uma Unidade de Terapia Intensiva.
Essa experiência revela um dos paradoxos centrais apontados por Appel: "A UTI foi concebida para a vida, não para a morte". A frase sintetiza a crítica a um modelo médico que, em muitas situações, prolonga artificialmente o processo de morrer e dificulta despedidas mais humanas e significativas.
Proposta prática para transformar tabu em preparação afetiva
A obra não se limita à denúncia ou à crítica. Há um esforço consciente de oferecer caminhos práticos e acessíveis. Appel propõe um questionário estruturado para que famílias possam conversar sobre temas difíceis, incluindo:
- Preferências sobre cremação ou sepultamento
- Posicionamento sobre doação de órgãos
- Limites de tratamentos médicos
- Rituais de despedida pessoalizados
- Discussão sobre suicídio assistido em casos extremos
A proposta central é transformar o tabu em preparação afetiva, deslocando a discussão do campo abstrato e temeroso para a ação concreta e planejada.
Dimensão pessoal que amplia o alcance da obra
A relação da autora com sua mãe, Leilah Assumpção, ganha destaque especial na narrativa, criando uma dimensão pessoal que amplia significativamente o alcance emocional da obra. O livro dialoga profundamente com a experiência universal de perda e com o reconhecimento doloroso de que aqueles que moldaram nossa história pessoal também são seres finitos.
Essa abordagem íntima aproxima o leitor de forma mais direta e visceral, permitindo que reflexões complexas sejam sentidas em nível pessoal. Com linguagem clara e delicadamente elaborada, Appel alterna dados estatísticos, entrevistas profissionais e memórias pessoais, construindo um texto que é simultaneamente informativo e emocionalmente potente.
Reforço especializado e reconhecimento da coragem autoral
O posfácio assinado pela médica paliativista Ana Claudia Quintana Arantes reforça a ideia central de que reconhecer a finitude pode intensificar paradoxalmente a experiência de viver com mais plenitude. Já o texto de orelha, assinado pelo jornalista Pedro Bial, ressalta a coragem necessária para tratar um tema tão sistematicamente evitado de maneira aberta, sensível e profundamente humana.
Embora a obra toque em questões sociais importantes como a desigualdade no acesso a cuidados paliativos e a influência da religião nos rituais de morte no Brasil, há espaço para aprofundamento dessas discussões éticas em trabalhos futuros. Ainda assim, o conjunto se impõe como reflexão necessária e urgente em nossa sociedade.
Proposta transformadora sobre a relação com a finitude
"Enquanto Você Está Aqui" propõe uma visão transformadora: nomear a morte não representa desistir da vida, mas sim valorizá-la de maneira mais consciente e significativa. Ao enfrentar corajosamente o silêncio cultural que cerca o tema, Camila Appel sugere que falar sobre o fim pode ser, na verdade, um gesto profundo de cuidado com aqueles que amamos e com nossa própria trajetória existencial.
A obra está disponível nas principais livrarias do país na versão física por R$ 79,90 (176 páginas) e na versão digital por R$ 55,90, oferecendo uma oportunidade valiosa para reflexão pessoal e familiar sobre um dos temas mais universais e negligenciados da experiência humana.