Disco perdido de Milton Nascimento é lançado após 48 anos
Disco perdido de Milton Nascimento é lançado após 48 anos

Disco perdido de Milton Nascimento é lançado após 48 anos

Em 1978, o roteirista Bráulio Pedroso adaptou três contos de Franz Kafka para o teatro em uma montagem experimental chamada As Gralhas. A peça, que marcou a estreia do ator Marcos Paulo como diretor e contou com a atuação do novato Jorge Fernando, foi criada para inaugurar o Teatro do Centro Cultural Candido Mendes, no Rio de Janeiro, com capacidade para cerca de cinquenta pessoas. Tudo indicava que a produção ficaria restrita ao passado do teatro brasileiro, não fosse por um detalhe especial: a trilha sonora foi composta e gravada pela banda A Barca do Sol, com Milton Nascimento nos vocais.

Gravada em uma única sessão de seis horas, a música de As Gralhas tornou-se uma relíquia ainda no ano de sua criação. A trilha não foi amplamente divulgada na imprensa da época, e os músicos envolvidos não se mobilizaram para lançá-la comercialmente. Considerada uma fita perdida, sua existência ganhou novo significado em 2024, quando o compositor Juca Filho encontrou o pesquisador Maurício Gouvêa. “Em uma das fitas cassete que o Juca me deu, estava escrito ‘A Barca do Sol + Milton Nascimento’. Fiquei louco, porque adorava A Barca do Sol e Milton é o grande farol da minha vida musical”, conta Gouvêa. Juca, amigo próximo dos integrantes da banda, havia recebido uma cópia da gravação como presente e a guardou por décadas.

Diante da descoberta, Maurício mobilizou-se para transformar a fita em disco. O produto final, remasterizado pela Fábrica Rocinante, já está disponível em vinil pelo serviço de assinatura Três Selos Rocinante.

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A história por trás da gravação

Na época, A Barca do Sol, importante grupo de rock progressivo brasileiro, aceitou fazer a trilha de As Gralhas a convite de Marcos Paulo. Ele escolheu a cantora Olivia Byington, sua namorada na época, para gravar com a banda. Porém, pouco antes do início das gravações, o casal terminou o relacionamento e Olivia deixou o projeto. Dias depois, um substituto foi anunciado: Milton Nascimento, que aceitou o convite de Marcos.

Para musicar os três contos de Kafka — Diante da Lei, Primeira Dor e O Veredicto — houve um trabalho minucioso para reproduzir sons que fossem importantes para a narrativa. “Uma das faixas conta com flautas de David Ganc, membro da banda, emulando sons de gralhas cantando desarvoradamente”, explica Gouvêa. Na faixa O Camponês, cuja versão estendida está disponível no YouTube, o piano e os vocais de Milton introduzem a melancolia do personagem que vive a angústia de não conseguir atravessar os portões da lei. Para Gouvêa, Milton em As Gralhas está em sua plenitude vocal.

Descoberta de fitas de rolo

O encontro transcendental entre A Barca do Sol e Bituca ficou guardado também em fitas de rolo que pertenciam a Alain Pierre, baixista da banda. Elas foram descobertas quando Gouvêa procurou os integrantes para obter autorização para o relançamento. “O cassete já estava com um som legal, mas a fita de rolo tinha qualidade superior, inclusive com uma faixa a mais”, conta Gouvêa.

A remasterização e o lançamento em vinil representam a primeira vez que essa trilha sonora histórica chega ao público, resgatando um capítulo importante da música brasileira.

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