Há uma cena dramática no filme Dor e Glória (2019) que o diretor Pedro Almodóvar, hoje, considera cômica. O protagonista vivido por Antonio Banderas, um alter ego do cineasta espanhol, visita no hospital a mãe idosa e frágil, interpretada por Julieta Serrano. A matriarca pede ao filho que não faça filmes sobre ela, nem sobre suas vizinhas, por temer que fossem vistas como caipiras incultas do interior da Espanha. A cena também se deu na vida real. “Minha mãe me proibiu de retratá-las”, disse o diretor a VEJA, com um riso melancólico diante de uma promessa que ele não poderia cumprir. “Aquelas mulheres deixaram uma marca profunda em mim, foram elas que me educaram para a vida”, contou.
O respeito pelo clã é visível em sua obra: a comunidade feminina que o criou, com seus hábitos e crenças, dores e alegrias, tendo a amizade como ingrediente primordial contra a solidão, foi o sopro de vida das personagens vibrantes que viriam a ser categorizadas como “mulheres almodovarianas”. Em seu novo filme, Natal Amargo (Amarga Navidad, Espanha, 2026), aclamado no Festival de Cannes e que estreia nos cinemas brasileiros na quinta-feira 28, o diretor entra de forma mais incisiva na discussão que vira e mexe o assombra: até onde vão os limites éticos ao usar a vida alheia como fonte de inspiração?
Desavença e autoficção
A história do longa segue, paralelamente, dois cineastas, Elsa (Bárbara Lennie) e Raúl Rossetti (Leonardo Sbaraglia) — novos alter egos para a conta de Almodóvar. Elsa abandonou o ofício que lhe era penoso e enveredou para a publicidade. Raúl, um diretor aclamado e há anos sem um novo roteiro, começou a escrever sobre si mesmo e, ao esgotar o material já usado por ele tantas vezes, passou a criar baseado nos dramas dos amigos ao redor, sem o consentimento destes. Ele insiste que os personagens são fictícios e que só se parecem superficialmente com os colegas, desculpa que não cola com aqueles que se sentem traídos pelo olhar indiscreto e invasivo do roteirista. O escritor Oscar Wilde cunhou um ótimo argumento para esse tipo de licença: “Todo retrato pintado com sentimento é um retrato do artista, não do modelo”.
Referências afetivas no multiverso de Almodóvar
No “multiverso” de Pedro Almodóvar, elementos pessoais se repetem, mas sempre com uma nova roupagem. A forte conexão do diretor com a mãe, Francisca Caballero, reverenciada em Dor e Glória (2019), se reflete em todos os seus trabalhos: para Almodóvar, não há história sem uma matriarca. Protagonistas intensas, luto e a construção de famílias sem laços de sangue pautam vários filmes do diretor, entre eles o impactante Tudo sobre Minha Mãe. O cineasta nunca escondeu sua sexualidade, colocando relações homoafetivas no centro de várias tramas — aliás, A Lei do Desejo (1987) foi seu primeiro longa a ganhar prestígio mundial.
Almodóvar escolheu a si próprio como esse primeiro modelo. Foi a partir de Dor e Glória, explicitamente autobiográfico, que ele assumiu se esconder, de forma subjetiva, atrás de seus filmes. O diretor, porém, nunca enganou ninguém. Poucos cineastas possuem uma filmografia tão pessoal sem deixar de ser criativa e surpreendente ao mesmo tempo. O “multiverso” do espanhol, por assim dizer, é composto por temas que o instigam, de paixões a traumas. Estão presentes as descobertas sexuais da juventude, que marcaram seus primeiros filmes, comédias caóticas e sensuais, caso de Mulheres à beira de um Ataque de Nervos (1988); o abuso sofrido na Igreja Católica, tema de Má Educação (2004); até culminar nos melodramas dos anos 2000, pautados pelo luto da perda da mãe, Francisca Caballero, que morreu em 1999 — fase de títulos cultuados, como Volver e Fale com Ela, que lhe garantiu um Oscar.
Com o avançar da idade, Almodóvar encarou problemas de saúde que quase o levaram à aposentadoria. Em um esforço contra a resignação, fez a esquecível comédia Os Amantes Passageiros (2013). Depois, uma cirurgia na coluna, enxaquecas severas e um zumbido constante no ouvido tentaram tirá-lo de vez dos sets de filmagem, sem sucesso. Hoje, aos 76 anos, garante que o cinema é seu tanque de oxigênio — e sua vida, a fonte inesgotável de inspiração.
Natal Amargo não está entre os melhores filmes do diretor, mas passa longe de ser ruim. Afinal, um Almodóvar (nome vertido em grife no meio) é geralmente melhor do que muito do que é feito por aí. O longa metalinguístico, com uma reviravolta logo no início, salpica no roteiro elementos típicos da mente do espanhol. Há desde um bombeiro que é dançarino erótico nos fins de semana até uma mulher traída que foge de casa e uma sequência espirituosa da protagonista em busca de remédios controlados sem receita. Pela primeira vez, o diretor espanhol se coloca abertamente na pele da personagem feminina: ela está em luto pela morte da mãe e descobre que suas dores de cabeça são, na verdade, sintomas de ataques de pânico. Uma combinação típica da mente almodovariana.
“O importante é não parar”
Pedro Almodóvar conta a VEJA sobre seu processo criativo em novo filme. Natal Amargo fala, entre outros temas, de crise criativa. Como lida com esse obstáculo? Trabalhando. As pausas e as esperas fazem parte da aventura de criar. É preciso ter paciência, deixar o texto descansar e depois voltar a ele. O importante é não parar e continuar escrevendo. Alguns de meus roteiros levaram anos. Outros surgiram rapidamente. Pode citar um exemplo? O mais veloz foi Mulheres à beira de um Ataque de Nervos. Ele saiu inteiro, de uma vez, como destampar uma garrafa.
Se vê nos protagonistas de seu novo filme? Em Raúl, principalmente. Para mim, ele é o vilão. Não quis ser complacente com o que ele faz. É uma espécie de autocrítica. Quando me inspiro em pessoas próximas, tento não ferir ninguém. Mas reconheço que a natureza do criador é egoísta. Já perdeu amigos assim? Não, nunca, só me lembro de quando minha mãe me proibiu de retratar nossas vizinhas. Mas aquelas mulheres deixaram uma marca profunda em mim; foram elas, com minha mãe, que me educaram para a vida. Qual o segredo de uma boa personagem feminina? Interesse. Homens e mulheres ocupam o mesmo espaço nos conflitos humanos. Por isso me esforço para entendê-las. Os efeitos especiais de meus filmes nada mais são do que duas mulheres conversando profundamente.



