Documentário 'Vivo 76' explora a gênese de um marco da música brasileira
Em 1975, Alceu Valença realizou na Praia de Copacabana uma ação promocional inusitada para seu show 'Vou danado pra catende', utilizando um megafone para atrair o público. A banda contava com o então desconhecido Zé Ramalho, entre outros talentosos músicos. Esse momento histórico é revisitado no documentário 'Vivo 76', dirigido por Lírio Ferreira, que estreia na 31ª edição do festival É Tudo Verdade, com sessões no Rio de Janeiro e São Paulo entre 8 e 18 de abril.
Uma jornada desde a infância até o sucesso
O filme traça a trajetória de Alceu Valença desde sua infância em São Bento do Una, Pernambuco, onde o circo influenciou sua mente criativa. Idealizado em 2016 por Lírio Ferreira e Cláudio Assis, o projeto chegou às telas uma década depois, assinado apenas por Ferreira, como atração principal do festival. O documentário foca no show 'Vou danado pra catende' e no álbum 'Vivo!', lançado em março de 1976, que harmonizou gêneros nordestinos com rock, marcando a carreira do artista.
Na primeira metade do filme, o espectador acompanha o percurso de Alceu até aquele momento definidor, incluindo a gravação de seu primeiro álbum solo, 'Molhado de suor', de 1974, que não obteve repercussão inicial. Alceu descreve esse trabalho como influenciado pelo mar e pelas águas da Baía da Guanabara, destacando sua evolução artística.
Depoimentos e contexto político
O roteiro é pontuado por músicas do show de 1975 e entremeado por falas de Alceu, captadas em entrevistas e material de arquivo. Além do artista, o diretor abre espaço para vozes como o crítico musical Antonio Carlos Miguel, o músico Charles Gavin e o biógrafo Júlio Moura. Esses depoimentos oferecem análises reflexivas, indo além do elogio superficial comum em documentários.
Moura, por exemplo, discorre sobre a ida de Alceu aos Estados Unidos durante o Festival de Woodstock em 1969 e a resistência que o show de 1975 enfrentou da elite cultural, incluindo críticas de jornalistas do semanário 'O Pasquim'. O filme também apresenta um reencontro emocionante entre Alceu Valença e Geraldo Azevedo no Teatro Claro Mais, antigo Tereza Rachel, onde o show foi gravado ao vivo em setembro de 1975.
Resistência e repressão na ditadura
O depoimento de Geraldo Azevedo traz à tona a repressão sofrida por artistas durante a ditadura militar, incluindo sua própria prisão e tortura. Alceu relata como ficou abalado com a notícia, a ponto de considerar deixar o Brasil durante a temporada do show. O diretor Lírio Ferreira sagazmente entrelaça cenas do clipe de 'Retrato 3 x 4' com imagens de passeatas contra a ditadura, reforçando o tom político do documentário.
Esse contexto ressalta o preconceito enfrentado por Alceu, frequentemente chamado de 'louco' ou 'toxicômano' por seu cabelo comprido. Como um 'cabeludo circense', ele enfrentou a repressão e promoveu o show em Copacabana, que inicialmente atraiu apenas 39 pessoas na estreia, chegando a ter plateias de apenas cinco espectadores.
O sucesso inesperado e legado duradouro
Diante do público reduzido, Alceu reuniu a banda – incluindo Paulo Rafael, Israel Semente Proibida, Zé da Flauta, Agrício Noya e Zé Ramalho – e levou o circo para a praia. Essa ação de marketing inusitada resultou em um sucesso repentino, lotando o Teatro Tereza Rachel e levando à gravação do álbum 'Vivo!', que definiu o rumo da carreira de Alceu Valença. O artista, com orgulho, reconhece no filme a 'dose de loucura' que o impediu de se tornar um mero escravo da cultura do entretenimento.
O documentário 'Vivo 76' não apenas celebra um marco musical, mas também explora a resistência artística e a inovação em tempos de opressão, oferecendo uma visão profunda sobre a trajetória de um dos ícones da música brasileira.



