Documentário 'Apocalipse segundo Baby' ilumina jornada espiritual da cantora em festival nacional
O cineasta Rafael Saar apresenta uma obra cinematográfica profunda e envolvente com "Apocalipse segundo Baby", documentário musical que integra a programação da prestigiada 31ª edição do festival É Tudo Verdade. Com sessões agendadas entre 12 e 14 de abril nas capitais do Rio de Janeiro e São Paulo, o filme marca o retorno do diretor à forma que consagrou trabalhos anteriores, após o documentário "Sem vergonha" sobre Maria Alcina em 2024.
Trajetória artística e transformação espiritual
Com foco na vida e obra de Baby do Brasil, nome artístico de Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade, nascida em 18 de julho de 1952 em Niterói, o documentário traça um panorama abrangente da carreira da artista que foi vocalista do grupo Novos Baianos na década de 1970. A produção, que começou a ser desenvolvida em 2008, explora de maneira sensível a radical transformação espiritual vivida pela cantora, que em 1999 se converteu ao cristianismo evangélico pentecostal e desde então se autodenomina "pastora pop" ou "popstora".
Através de um roteiro cuidadosamente construído que alterna imagens de arquivo desde o final dos anos 1960 até os dias atuais, Saar demonstra como a espiritualidade sempre foi elemento recorrente na trajetória de Baby, mesmo durante sua fase hippie que causava estranhamento em famílias tradicionais como a de Pepeu Gomes, com quem manteve relacionamento, casamento e teve seis filhos.
Narrativa afetiva e material histórico
Com duração de 109 minutos, o documentário produzido pela Dilúvio Produções em parceria com o Canal Brasil oferece um olhar afetivo sobre o passado da artista, incluindo registros raros de sua participação no cinema underground baiano através do filme "Caveira, my friend" (1970), dirigido por Álvaro Guimarães. A narrativa acompanha momentos fundamentais como a fuga de Baby para a Bahia na adolescência, o período em que morou literalmente debaixo da Ponte de Piatã em Salvador – local revisitado pela artista durante as filmagens em 2011 – e sua peregrinação pelo Caminho de Santiago, experiência crucial para sua conversão religiosa.
O diretor dedica atenção especial à vida comunitária de Baby (então Consuelo) com os companheiros dos Novos Baianos durante os anos de repressão ditatorial, período que a própria cantora resume com a frase: "A ditadura brasileira foi avassaladora, mas a ginga brasileira venceu". Cenas históricas incluem a reprodução integral do clipe em que o grupo canta "Brasil pandeiro" (Assis Valente, 1940) e o vídeo de Baby interpretando "A menina dança" (Moraes Moreira e Luiz Galvão, 1972).
Encontros musicais e reflexões pessoais
Comparada pelo jornal norte-americano Los Angeles Times a uma "Janis Joplin latina" pelo carisma e energia em palco – analogia reforçada no filme através de sucessivas imagens de shows em diferentes fases – Baby do Brasil também é retratada em encontros significativos com grandes nomes da música brasileira. O documentário mostra a artista cantando o choro "Brasileirinho" (Waldir Azevedo, 1949) junto a Ademilde Fonseca (1921-2012) e Elza Soares (1930-2022), música que se tornou recorrente em seus próprios espetáculos.
Um dos momentos mais emocionantes do filme rememora a corrente de oração organizada por Baby em março de 1983 na porta da clínica onde Clara Nunes (1942-1983) estava internada com sequelas irreversíveis da operação de varizes que levaria à morte da cantora semanas depois. Nesse mesmo período, Baby conheceu e promoveu a figura controversa de Thomas Green Morton, popularizado como "O homem do Rá", experiência que ela narra detalhadamente diante das câmeras de Saar, incluindo seu posterior desencantamento com o suposto paranormal.
Visão atual e questões não abordadas
Embora o documentário não desenvolva uma reflexão crítica profunda sobre a transformação de Bernadete em Baby Consuelo e posteriormente em Baby do Brasil, ele ilumina significativamente as questões que movem a artista tanto na música quanto na vida espiritual. A produção revela como a visão atual de Baby sobre sua própria obra difere de interpretações anteriores, como evidenciado quando a cantora se esquiva de comentar o sentido original da letra de "O mal é o que sai da boca do homem" (Baby do Brasil, Pepeu Gomes e Luiz Galvão), música que em 1980 defendia a liberdade de fumar maconha através de jogos de palavras.
Para a Baby do Brasil contemporânea, já não cabe falar de drogas em letras musicais, pois a música representa "o contato direto com Deus" em sua compreensão espiritual. O documentário finaliza com a artista aguardando o que chama de "arrebatamento", termo mais conhecido popularmente como apocalipse, fechando o círculo sugerido pelo título da obra que, apesar de enfatizar a questão espiritual, transcende a mera pregação religiosa para mostrar a transcendência da música pop na trajetória singular dessa figura fundamental da cultura brasileira.



