Núcleo Bandeirante: a 'Cidade Livre' que deu origem a Brasília
Chão de terra batida, acampamentos improvisados e um comércio totalmente livre de impostos. Essa era a realidade da Cidade Livre, conhecida hoje como Núcleo Bandeirante, uma das primeiras regiões habitadas do Distrito Federal. Surgida em 1956, a apenas 15 km do centro de Brasília, serviu de apoio essencial para os trabalhadores que participaram da construção da nova capital brasileira.
O nascimento de um núcleo provisório
A Companhia Urbanizadora da Nova Capital (NOVACAP) estabeleceu regras específicas para a Cidade Livre: apenas construções de madeira eram permitidas, facilitando o desmonte após a conclusão de Brasília. Apesar das limitações, o local se desenvolveu rapidamente, tornando-se não apenas moradia para operários, mas também um centro de lazer nos finais de semana.
Maria Fernanda Derntl, professora e pesquisadora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília, destaca a vitalidade do lugar: "Era um centro vivo e animado, fundamental para abastecer as pessoas envolvidas na construção inicial de Brasília. Vários críticos notaram o contraste entre a Cidade Livre, com seu espaço pulsante e dinâmico; e o plano de Brasília, que muitos consideravam frio e artificial".
A vida dos candangos e o comércio livre
A promessa de uma "nova capital" e uma "nova vida" no Planalto Central atraiu milhares de pessoas de todos os cantos do país. Com isso, a Cidade Livre se tornou símbolo da chegada desenfreada dos "candangos" nos primeiros anos da empreitada.
O primeiro cronista de Brasília, Clemente Luz, descreveu com riqueza de detalhes a rotina desses trabalhadores: "Vocês não podem imaginar o entusiasmo que senti, esta noite, quando as vozes, como num mutirão de roça, entoavam as canções regionais. Eram os nortistas, com os baiões ligeiros sentimentais. Eram os mineiros, com as modinhas picantes e sentimentais, também".
O nome "Cidade Livre" não surgiu por acaso. José Gomes, doutor em História Cultural, explica: "A denominação da localidade se refere, de maneira oficial, à isenção de tributos, taxas e uma fiscalização rigorosa, o que beneficiava o comércio e a rápida implementação de serviços. Era 'livre' sob a perspectiva econômica e administrativa".
Da provisoriedade à permanência
Com a aproximação da inauguração de Brasília em 1959, a data de validade da Cidade Livre também se aproximava. Moradores e empresários locais se organizaram na Associação Comercial de Brasília (ACB) para reivindicar a permanência na cidade.
A situação só foi regularizada durante o governo do presidente João Goulart, quando Brasília já era formalmente a nova capital do Brasil. Em 1961, o Núcleo Bandeirante foi reconhecido como cidade-satélite, mas não sem resistência.
Maria Fernanda Derntl relata: "Lucio Costa buscou apoio para impedir que isso de fato ocorresse. Ele esperava que aos poucos a população fosse se mudando para essas cidades-satélite".
Resistência e transformação urbana
O Núcleo Bandeirante testemunhou momentos importantes da história inicial de Brasília. Em 1958, uma mobilização de pessoas que haviam ocupado uma área próxima para morar e demandavam acesso a lotes de terra foi intensamente reprimida pelas forças policiais.
Para evitar conflitos que pudessem ameaçar a construção de Brasília, as autoridades da Novacap negociaram a transferência dos manifestantes para uma área mais distante, dando origem a Taguatinga, a primeira cidade satélite criada naquele mesmo ano.
Atualmente, cerca de 25 mil pessoas moram no Núcleo Bandeirante, segundo dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios. José Gomes afirma que a consolidação da região como área administrativa é fruto da luta histórica dos moradores locais.
"A luta de muitos sujeitos para permanecer na Cidade Livre se destaca como um exemplo de resistência e transformação diante das mudanças urbanas em Brasília", diz o pesquisador. "Enquanto muitos núcleos provisórios se tornaram 'irregulares' após a inauguração da cidade, a Cidade chamada de Livre, apesar das dificuldades, resistiu e se estabeleceu como parte integrante do tecido urbano da nova capital".



