PM é afastado após atirar com bala de borracha e agredir morador no Catumbi
Um policial militar foi afastado das atividades externas após agredir e atirar com bala de borracha em um morador do Catumbi, na região central do Rio de Janeiro, na noite de sexta-feira (20). O incidente, que foi registrado em vídeo por um morador, ocorreu na mesma área onde quatro pessoas foram baleadas durante um ataque de criminosos na quarta-feira (18), aumentando a tensão na comunidade.
Violência policial filmada em vídeo
Nas imagens divulgadas, um grupo de jovens aparece na parte inferior do vídeo, com um deles montado em uma bicicleta. Um policial militar surge apontando uma arma de bala de borracha e grita: “Corre não”. O agente ordena que o rapaz desça da bicicleta, iniciando uma discussão que rapidamente escalona para violência física.
O PM bate com a arma no peito do jovem e em seguida efetua um disparo. Em outra cena, o rapaz aparece cercado por dois policiais, onde um deles lança uma bomba de efeito moral enquanto o outro começa a agredi-lo com força. A irmã da vítima tenta intervir para proteger o irmão, mas também é empurrada com violência pelos agentes.
Revolta dos moradores e mais disparos
Testemunhas relataram que os moradores presentes no local ficaram revoltados com a agressão, levando o policial a disparar novamente – desta vez para o alto, em um gesto de intimidação. Após o tumulto, o jovem agredido foi retirado do local pelos agentes e, juntamente com outras pessoas envolvidas, foi conduzido para a 6ª Delegacia de Polícia (Cidade Nova) para registro da ocorrência.
Vítima relata agressões e medo de represálias
O RJ2 conversou com o rapaz que aparece nas imagens sendo agredido. Ele apresentava uma das pernas machucada e afirmou que o ferimento foi causado pelo disparo de bala de borracha. Por medo de represálias, ele preferiu não se identificar publicamente.
“À queima-roupa contra minhas pernas. Uma eu já estava imobilizado no chão, ele grudou a 12 na minha perna e deu. E a outra foi a que apareceu no vídeo, que eu dei um tapa, se não ele ia acertar meu peito. Ele só tava querendo o ângulo certo pra acertar meu peito. Me enforcou, me agrediu. Me bateu, me deu até tapa na cara”, descreveu a vítima, visivelmente abalada.
Conexão com tragédia familiar recente
O caso aconteceu numa área conhecida como Predinhos, que fica num dos acessos ao Morro da Mineira, no Catumbi. O jovem agredido é parente de Henrique da Silva, de 23 anos, uma das vítimas fatais do ataque criminoso ocorrido na quarta-feira anterior.
Ele contou que tinha acabado de voltar do enterro do primo quando foi abordado violentamente pelos policiais. “Tinha acabado de vir do enterro, nem por isso tiveram consideração. Meu primo de sangue, fui só comprar um cigarro e um guaravita pra distrair a mente. Os caras já chegam fazendo isso, maior covardia”, lamentou.
Família sofre com violência dupla
A irmã do jovem também relatou ter sido alvo de agressões e ameaças durante o incidente. “Ele tipo veio em cima de mim, deu com a arma que ele tava, em cima de mim. Começou a me xingar e a me ameaçar, falando que eu não tinha que me meter e que o filho dele não fazia isso. Eu falei 'mas o que meu irmão fez? O que meu irmão fez?' E ele não sabia dizer”, contou ela.
A mãe do rapaz, que estava em estado de choque, expressou sua indignação com a falta de sensibilidade dos policiais. “Meu esposo me levou pra ir pra outro lugar, pra distrair a cabeça. Você imagina como seria pra mim, chegar aqui e encontrar meu filho sem vida?”
Ela acrescentou: “Ele não quis nem saber a dor que a gente tava passando. Ele só quis saber que ele tinha que botar a ordem na força dele. E batendo em gente que não tinha nada a ver. Ele não quis saber se teve enterro, se família tava sofrendo. Não quis saber se meu filho era primo ou não”.
Investigação em andamento e pedido por justiça
Segundo a Polícia Militar, o comando do Batalhão de São Cristóvão vai investigar minuciosamente a abordagem violenta. Os vídeos que circulam nas redes sociais serão analisados como parte do processo investigativo, e o policial que aparece atirando já foi identificado e afastado das atividades externas como medida preventiva.
A vítima finalizou seu depoimento com um apelo emocionado: “Eu só quero Justiça mesmo. Só Justiça mesmo. Porque isso daí foi muita covardia. Muita covardia. Eu tava voltando do velório do meu primo, não tava bem. Já não tava com psicológico bom. Duas covardias, com a mesma família. Isso não existe”.
O RJ2 procurou a Polícia Civil para obter informações sobre o registro formal da ocorrência, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem. A comunidade aguarda com ansiedade os desdobramentos das investigações e medidas disciplinares contra os agentes envolvidos.