Um agricultor de 48 anos foi morto a tiros dentro da própria casa durante uma ação da Brigada Militar (BM) na zona rural de Pelotas, no Rio Grande do Sul. O corpo de Marcos Nornberg foi sepultado na manhã desta sexta-feira (16) no Cemitério Ecumênico São Francisco de Paula, em Pelotas. O velório ocorreu com caixão fechado devido à gravidade dos ferimentos.
Operação baseada em informações falsas
A intervenção policial foi desencadeada na madrugada de quinta-feira (15). A BM planejou a operação após receber um informe detalhado da Polícia Militar do Paraná. As informações, repassadas por dois homens presos em Guaíra (PR), apontavam com precisão a propriedade de Nornberg como um suposto depósito de armas e veículos roubados.
O comandante-geral da BM, coronel Cláudio Feoli, defendeu a urgência da ação, mas admitiu que nenhuma das informações era verdadeira. "Não se confirmou a verificação de veículos roubados, de armamento", afirmou. A única arma encontrada, segundo a corporação, foi a utilizada pelo agricultor durante o confronto.
Relato da viúva: "Achei que eram bandidos"
A viúva de Marcos, Raquel Nornberg, descreveu a abordagem como brutal e confusa. Ela contou que o casal dormia quando ouviu movimentação no pátio. Marcos saiu para verificar e, em seguida, ela ouviu gritos e disparos.
"A gente achou que era bandido, a gente jamais imaginou que era polícia", relatou Raquel. Ela detalhou que os policiais teriam aberto seu roupão, feito deboche e ordenado que ela se ajoelhasse sobre cacos de vidro. "Foi uma brutalidade. O tempo inteiro eu achei que eram bandidos", disse. Apenas ao ver os uniformes, percebeu tratar-se de uma ação policial, mas a violência a fez duvidar.
O produtor rural havia se mudado para Pelotas em busca de paz e era responsável pela produção da família após o pai perder um braço devido a um câncer. A família cultivava morango e milho doce para venda em feiras.
Investigações e afastamentos
Diante da gravidade do caso, o comandante-geral da BM determinou o afastamento de 18 policiais militares envolvidos na ação. A Corregedoria-Geral da Corporação instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar as circunstâncias. As armas utilizadas pelos policiais foram apreendidas.
Paralelamente, a Polícia Civil também abriu um inquérito. O delegado César Nogueira afirmou que a corporação não tinha conhecimento prévio da operação e considerou o número de policiais e viaturas como "incomum". Testemunhas, incluindo a viúva, serão ouvidas a partir de segunda-feira (19).
O governador Eduardo Leite se manifestou, pedindo "rigorosa apuração" da conduta dos agentes. "O Rio Grande do Sul tem uma polícia bem preparada, mas não é imune a erros", declarou. O coronel Feoli classificou o episódio como "um grande mal-entendido com desfecho trágico", resultante de uma "colisão de percepções".