Adolescente baleado e prima agredida por policiais militares em Fortaleza
Dois soldados da Polícia Militar do Ceará (PMCE) foram presos durante uma ocorrência violenta no Bairro Granja Lisboa, em Fortaleza, na noite da última terça-feira (17). O episódio resultou em um adolescente de 16 anos baleado na nuca e sua prima agredida com um tapa no rosto por um dos agentes. Um vídeo que circula nas redes sociais mostra o desespero da família após o jovem ser atingido e o momento da agressão contra a mulher.
Detalhes da ação policial e prisão dos agentes
Conforme o Auto de Prisão em Flagrante, ao qual o g1 teve acesso, os policiais foram ao endereço na Rua Bom Jesus após receberem uma denúncia anônima de que uma mulher estaria sendo agredida e mantida em cárcere privado no local. Durante a verificação, o soldado Daniel Everson Quirino de Andrade efetuou disparos, e um deles atingiu o adolescente. Testemunhas relataram à polícia que ouviram cerca de cinco tiros. Familiares informaram que o jovem foi atingido na nuca, com a bala saindo pela garganta, deixando-o em estado de saúde grave. Nenhuma pessoa em situação de cárcere privado foi encontrada.
Após o disparo, familiares e vizinhos começaram a questionar os policiais. A prima do adolescente (identidade preservada) foi agredida com um tapa pelo soldado Gilberto Maciel de Paiva Júnior, que chegou em outra viatura para dar apoio à ocorrência. Em entrevista ao g1, a mulher agredida descreveu a cena: "Na tentativa de tentar socorrer, os policiais estavam afastando a família. Entraram na cozinha da minha avó, ficaram mexendo com o meu primo. Eu falei que eles não poderiam mexer com ele, pois ele estava baleado e a família não deixou. Esse policial [agressor] iria bater em outro primo meu, foi quando eu falei que iria denunciar na CGD, e ele me bateu".
Consequências das agressões e estado das vítimas
Com o impacto do tapa, a mulher caiu no chão e lesionou os dois joelhos. Ao levantar, ela continuou sendo agredida pelo soldado Gilberto Maciel, segundo seu relato: "Quando me levantei, ele me deu outro golpe, apertou minha boca e me imprensou contra o carro. Estou toda machucada, toda roxa". A parente do adolescente baleado afirmou ainda que os agentes jogaram spray de pimenta nela e em outros familiares, incluindo a avó do jovem, uma idosa de 77 anos.
Após buscas na casa que não encontraram ilícitos, a família pôde socorrer o adolescente, que foi levado ao Frotinha da Parangaba e, devido à gravidade, transferido para o Hospital Instituto Doutor José Frota (IJF), onde permanece internado. A prima do rapaz informou: "Ele está estável. Os médicos disseram que ele vai perder o movimento do braço esquerdo. Por enquanto, irão aguardar seis dias para analisar se ele passará por uma possível cirurgia". A família esclareceu que a casa apontada pelos policiais como local de cárcere é do irmão da vítima e não estava habitada, pois o proprietário viajou para trabalhar no interior do Estado.
Versões conflitantes e decisões judiciais
O Supervisor de Policiamento do 17º Batalhão da PMCE foi acionado ao local em meio à confusão. Segundo o inquérito policial, ao chegar, o supervisor perguntou ao soldado Quirino, que atuava como comandante da viatura, o que havia acontecido. Quirino alegou que estava em cima de um muro quando avistou dois homens que apontaram uma arma para ele e, na tentativa de se defender, fez os disparos. Ao ser indagado sobre a arma avistada e o segundo suspeito, o soldado disse que o homem correu e não foi encontrada arma no local.
A família do adolescente contestou essa versão, relatando que o jovem estava no terreno da avó e havia acabado de guardar a motocicleta do primo em casa quando foi surpreendido por um tiro pelas costas. A arma usada pelo soldado que baleou o adolescente foi apreendida, e a composição que estava na ocorrência foi encaminhada à Coordenadoria de Polícia Judiciária Militar (CPJM). Na ocasião, houve a prisão dos soldados Daniel Everson Quirino e Gilberto Maciel.
Audiência de custódia e medidas aplicadas
Durante a audiência de custódia dos policiais militares, realizada na última quinta-feira (19), o soldado Gilberto Maciel – que foi gravado agredindo a parente do adolescente – foi solto com medidas cautelares, válidas por 60 dias. Entre as medidas estão:
- Retirada provisória do porte de armas
- Confinamento no quartel ou guarnição, apenas para serviços administrativos internos, vedada atuação ostensiva nas ruas
- Proibição de frequentar o local onde ocorreu o fato e de se aproximar das vítimas
A defesa do soldado Gilberto, representada pelos advogados Oswaldo Cardoso e Edilene Maciel, disse ao g1 que a decisão judicial reconheceu que não havia requisitos legais que autorizassem a prisão preventiva do agente. "A defesa reforça sua confiança no Poder Judiciário e ressalta que seguirá acompanhando o caso, demonstrando, no curso do processo, a verdade dos fatos", afirmou.
Já o soldado Daniel Quirino teve a prisão preventiva decretada. O juiz levou em consideração a gravidade da conduta do soldado. A defesa dele não foi localizada. Um trecho da decisão judicial destaca: "O próprio CPJM entendeu pela gravidade inicial dos fatos ao dar voz de prisão ao autuado e recolhê-lo preventivamente, demonstrando que a mera adoção das medidas do art. 319 do CPP não serão suficientes para conter o periculum libertatis".
O g1 procurou a Polícia Militar do Ceará para comentar a ação policial, mas não recebeu retorno até a publicação desta matéria.



