Polícia Federal investiga vídeos que incitam violência contra mulheres nas redes sociais
A Polícia Federal está conduzindo investigações sobre vídeos que circulam em redes sociais e incitam a violência contra as mulheres. O "não" de uma mulher não se discute, e quando é desrespeitado, configura crime. Um caso emblemático ocorreu em Curitiba, onde Maria Neuzete Batista, recepcionista de um hotel, foi brutalmente agredida após recusar avanços de um hóspede.
Caso concreto ilustra gravidade da violência
Maria Neuzete Batista relata que estava trabalhando quando pediu a um hóspede que não bebesse na recepção do hotel. Em resposta, o homem a agrediu até que ela desmaiasse. "Aquilo foi uma cena de horror. Estou me sentindo um lixo, porque a defesa dele alega que foi um simples ponto casual. Eu não quis dar um beijo nele, porque eu simplesmente estava no meu trabalho", desabafa a vítima.
O agressor foi identificado como Jhonathan Reynaldo dos Santos, de 24 anos, preso em flagrante. Jackson Bahls, advogado da vítima, é enfático: "Esse homem ia matar ela, sem dúvida alguma, ia matar ela. E essa morte aconteceria por um único fato: ela é mulher e ele foi rejeitado por ela".
Redes sociais como território fértil para o ódio
Os registros de casos de ódio contra mulheres dispararam de forma alarmante nos últimos anos, encontrando nas redes sociais um ambiente propício para se alastrar. Pesquisas de instituições renomadas confirmam essa tendência preocupante.
Um estudo da Fundação Getúlio Vargas revela que, apenas no Telegram, existem 200 mil usuários participando de grupos que estimulam a violência contra mulheres. Essas comunidades cresceram impressionantes 600 vezes desde o período da pandemia.
Julie Ricard, pesquisadora da FGV, explica a lógica por trás desses grupos: "São homens que não conseguem se encontrar nesse contexto de emancipação das mulheres, de empoderamento, de exercício de liberdade, e entendem qualquer limite, qualquer 'não' como uma agressão contra eles".
Plataformas digitais e a disseminação do discurso misógino
Pesquisadores do NetLab, laboratório de estudos digitais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, voltaram sua atenção para o YouTube. Os dados são alarmantes: nove em cada dez canais que propagam ódio, desprezo, aversão ou controle sobre as mulheres permanecem no ar mesmo depois de identificados, acumulando 23 milhões de inscritos - um crescimento de 18%.
Luciane Belin, pesquisadora do NetLab/UFRJ, destaca uma lacuna legal: "A misoginia também precisa ser criminalizada. A única lei sobre misoginia no Brasil é a Lei Lola, de 2018, que atribui à Polícia Federal a responsabilidade de investigar crimes de disseminação de discursos de ódio contra mulheres em ambientes digitais".
Vídeos que viralizam e a investigação em curso
O caso mais recente investigado pela Polícia Federal diz respeito a vídeos que viralizaram nas redes sociais com a legenda "treinando caso ela diga não". As publicações mostram jovens simulando chutes, socos e facadas em objetos usados para representar mulheres. Os vídeos tiveram origem em quatro perfis do TikTok, que acabaram removidos da plataforma.
Maria Neuzete Batista, que sobreviveu à violência por ter dito "não", questiona: "Eu lutei pela minha vida. Só porque eu não deixei uma pessoa... Eu disse não. Então, eu sou obrigada a pessoa chegar e me assediar e eu aceitar para não morrer?".
Posicionamento das plataformas digitais
A defesa de Jhonathan Reynaldo dos Santos informou que só vai se manifestar nos autos do processo. O TikTok afirmou que retirou os conteúdos do ar assim que recebeu as primeiras denúncias e que sua prioridade é manter a comunidade segura e protegida.
O YouTube declarou que discursos de ódio, assédio e cyberbullying não são permitidos na plataforma e que aplica com rigor suas políticas de conteúdo. O Telegram, por sua vez, não respondeu aos questionamentos sobre os grupos identificados pela pesquisa.
Este cenário evidencia a urgência de combater a violência digital contra mulheres, que encontra nas redes sociais um amplificador perigoso, exigindo ações coordenadas entre autoridades, plataformas e sociedade civil.



