Enfermeira relata luta pela vida após emboscada do ex-marido em São Luís
A enfermeira Sarah Julia Melo, de 29 anos, narrou com detalhes a luta desesperada para sobreviver após sofrer uma tentativa de feminicídio cometida pelo ex-marido, Rômulo Sousa Coimbra. O ataque brutal ocorreu na última sexta-feira (20), no bairro Cidade Operária, em São Luís, capital do Maranhão. O suspeito foi preso após se entregar voluntariamente às autoridades policiais.
Armadilha mortal com falsa informação sobre a filha
De acordo com as investigações em andamento, Sarah foi atraída até a antiga residência do casal após receber uma informação falsa sobre a saúde da filha mais nova. A mensagem enganosa indicava que a criança estava com febre alta, o que levou a mãe a se dirigir imediatamente ao local. Ao chegar, porém, a enfermeira percebeu que as duas filhas do casal estavam perfeitamente bem. Foi nesse momento que o ex-companheiro iniciou o ataque violento.
"Eu entrei em luta corporal com ele e, durante essa luta corporal, ele tentava a todo custo furar o meu rosto, furar meus olhos", relatou Sarah em entrevista. "Eu lutei muito segurando a faca e, a todo momento, eu gritava, pedia ajuda para que os vizinhos ouvissem e fossem me ajudar. Foi quando eu ouvi uma gritaria do lado de fora dos vizinhos. Dois vizinhos chegaram a subir, só que não se meteram. Ele ameaçou os vizinhos também, que não era pra fazer nada", completou a vítima.
Relacionamento marcado por ciúmes excessivos e controle
Sarah e Rômulo mantiveram um relacionamento conjugal por aproximadamente 14 anos, com o processo de separação iniciado há quatro meses. O casal tem duas filhas em comum. Segundo o depoimento da enfermeira, a relação sempre foi caracterizada por ciúmes excessivos e comportamento controlador por parte do ex-marido. As ameaças teriam se intensificado significativamente após a decisão de término, ocorrida em janeiro deste ano.
Durante o ataque, o agressor utilizou uma faca para golpear repetidamente a vítima, com ênfase em regiões vitais do corpo. "E em determinado momento, ele conseguiu perfurar os meus dois olhos. Conseguiu perfurar a minha garganta, que a intenção dele era pegar uma veia, uma artéria vital", descreveu Sarah. "Só que em todo momento eu me debatia, eu gritava e eu lutava a todo custo para poder me salvar daquilo. Aí foi que, em determinado momento, ele falou que não ia mais me matar, mas que ele ia me deixar deformada, ia me deixar cega. Para que eu vivesse com aquilo pro resto da minha vida".
Fuga com as filhas e entrega à polícia
Após cometer o crime, Rômulo fugiu do local levando consigo as duas filhas menores. As crianças foram posteriormente deixadas na residência da mãe do suspeito. Conforme informações da família da vítima, o agressor enviou mensagens a um amigo afirmando acreditar que havia matado Sarah. Os prints dessas conversas foram repassados pela enfermeira ao seu advogado, constituindo importante prova documental.
Na segunda-feira (23), o suspeito compareceu espontaneamente à Delegacia da Mulher em São Luís, onde foi cumprido o mandado de prisão preventiva já expedido contra ele. A delegada Tainara Neves está à frente das investigações do caso, que segue em andamento com a coleta de depoimentos e provas.
Classificação como tentativa de feminicídio
O caso foi formalmente classificado pela Justiça como tentativa de feminicídio, crime previsto no artigo 121, parágrafo 2º, do Código Penal Brasileiro. A pena para esse tipo de delito pode variar entre 12 e 13 anos de prisão. A defesa da vítima argumenta ainda pela aplicação da qualificadora de emboscada, que pode aumentar a severidade da punição.
A advogada Alda Bayma, especialista em Direito de Família, destacou a importância do reconhecimento precoce dos sinais que antecedem casos de violência doméstica. "Esse agressor dá sinais, e a mulher precisa estar alerta para identificá-los", afirmou a profissional. "Geralmente, ele utiliza métodos, como, por exemplo, formas de dependência, seja a dependência econômica ou mesmo a dependência emocional. Além disso, o agressor vai buscar isolar essa vítima da sociedade, da família, dos seus amigos, para que ela não tenha quem ajudá-la ou mesmo a quem pedir ajuda. É também importante a mulher identificar formas de manipulação".
Dados alarmantes sobre violência doméstica no Maranhão
As estatísticas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) revelam uma realidade preocupante no estado do Maranhão. Somente no ano de 2025, foram registrados 24.661 novos processos judiciais relacionados a casos de violência doméstica. Esses números destacam a urgência de políticas públicas mais efetivas e campanhas de conscientização sobre o tema.
O caso de Sarah Julia Melo ilustra de maneira dramática os riscos enfrentados por mulheres em situações de relacionamento abusivo, especialmente durante o período de separação. A coragem da enfermeira em relatar publicamente sua experiência busca alertar outras mulheres sobre os perigos da violência doméstica e a importância de buscar ajuda especializada.



