Júri condena autor de feminicídio a 18 anos de prisão em regime fechado em Minas Gerais
Um homem foi sentenciado a 18 anos, 3 meses e 15 dias de prisão em regime fechado pelo assassinato da ex-companheira, a balconista Elizângela Gomes Vieira, de 37 anos, ocorrido em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais. O julgamento histórico aconteceu nesta quinta-feira (26) no Fórum Gonçalves Chaves, marcando o desfecho de um caso que chocou a região e inicialmente foi tratado como suicídio.
Crime brutal com cena montada para simular suicídio
O crime aconteceu em julho de 2019 no bairro Tancredo Neves, quando Elizângela foi encontrada morta dentro de casa pela própria família. Inicialmente, as autoridades consideraram a possibilidade de suicídio, mas as investigações minuciosas da Polícia Civil revelaram uma realidade muito mais sombria.
"A vítima apareceu morta em casa, era uma suspeita de suicídio que ela teria se enforcado com uma corda, mas a investigação comprovou que a cena de suicídio foi uma cena montada", explicou o promotor de Justiça Daniel Lessa durante o julgamento.
As provas técnicas foram decisivas para desmontar a versão inicial. Dois peritos elaboraram três laudos cada, todos convergindo para a mesma conclusão: pelo formato da lesão no pescoço e pelas circunstâncias do local, a vítima não cometeu suicídio, mas foi estrangulada com uma corda de ginástica pelo ex-companheiro, que posteriormente pendurou o corpo para simular o autoextermínio.
Condenação por homicídio qualificado com múltiplas agravantes
Gilvan Vieira Pinto foi condenado por homicídio qualificado por quatro circunstâncias distintas:
- Asfixia, considerada meio cruel de execução
- Motivo torpe para o crime
- Uso de recurso que dificultou a defesa da vítima
- Feminicídio, pela condição de gênero da vítima
Além disso, o réu também recebeu condenação por fraude processual, por tentar adulterar a cena do crime para dificultar as investigações. O promotor destacou que "havia indícios de que o local do crime foi adulterado para dificultar a apuração dos fatos", demonstrando premeditação e tentativa de burlar o sistema de justiça.
Relacionamento de duas décadas terminado por suposta traição
O casal mantinha um relacionamento de mais de 20 anos quando ocorreu a separação, apenas três meses antes do crime fatal. Segundo as investigações do delegado Bruno Rezende, o motivo do rompimento teria sido uma suposta traição da mulher, conhecimento que o autor carregava há pelo menos seis meses.
"Houve uma frieza muito grande por parte do autor, ele sabia da traição há pelo menos seis meses. Ele colocou um programa espião no telefone da vítima e monitorou em tempo real as mensagens que ela trocava com o amante. E ainda colocou um rastreador na moto da mulher", revelou o delegado em entrevista concedida em outubro de 2019, quando da prisão do acusado.
Essas ações demonstram um planejamento meticuloso do crime, com o autor tendo tempo para se organizar, programar e executar o assassinato de forma calculada, segundo as autoridades policiais.
Família busca justiça e espera que condenação sirva de exemplo
Familiares de Elizângela acompanharam emocionados todo o júri, manifestando seu desejo por justiça após anos de espera. Joeliza Dias do Carmo, irmã da vítima, descreveu a personalidade da balconista e a dor causada pela perda irreparável.
"Elizângela era uma irmã muito boa, carinhosa e uma mãe muito dedicada. Cuidava muito bem da família e dos amigos próximos. Nós esperamos por Justiça e esperamos que ele cumpra a condenação, que se cumpra a Justiça e a lei, para que outras famílias que passam por essa mesma dor, veja que realmente a Justiça existe", declarou emocionada.
A família expressou ainda a esperança de que o desfecho do caso possa servir como exemplo e incentivo para outras vítimas de violência doméstica, demonstrando que o sistema judicial pode responder adequadamente a crimes dessa natureza.
Desfecho judicial após quatro anos de investigações
O caso, que permaneceu em investigação desde 2019, chegou finalmente a seu desfecho judicial com a condenação do autor. As autoridades destacaram a robustez das provas apresentadas, incluindo os laudos periciais que descartaram categoricamente a hipótese de suicídio.
O g1 não conseguiu estabelecer contato com a defesa do réu para saber se haverá recurso da decisão, deixando em aberto a possibilidade de novos desdobramentos processuais. Enquanto isso, a família de Elizângela encontra algum alívio na sentença, após anos de luta por justiça e verdade sobre o ocorrido.



