Família enfrenta burocracia para sepultar vítima de feminicídio em Sorocaba após duas semanas
Burocracia impede sepultamento de vítima de feminicídio em SP

Família enfrenta drama burocrático para sepultar vítima de feminicídio em Sorocaba

Duas semanas após o brutal feminicídio da cozinheira Lígia Ferreira de Souza, de 49 anos, em Sorocaba, no interior de São Paulo, sua família enfrenta um segundo e angustiante drama: uma complexa batalha burocrática que impede o sepultamento do corpo. A vítima, natural de Guarapari, no Espírito Santo, vivia há apenas seis meses na cidade paulista com o companheiro, que confessou o crime.

Impasse na certidão de óbito paralisa processo

Embora a família tenha conseguido realizar o traslado do corpo para a cidade natal de Lígia, o enterro permanece impossibilitado devido a um impasse na emissão da certidão de óbito. O corpo já está há 14 dias em uma funerária de Guarapari, aguardando a resolução do problema.

Carla Cristina de Souza, filha da vítima, explicou ao g1 que a dificuldade está no endereço registrado na declaração de óbito. "Não estou conseguindo fazer a certidão de óbito porque na declaração dela está o município de Sorocaba, como se ela fosse moradora de lá. Quando vou ao cartório aqui de Guarapari, não consigo fazer a certidão", relatou.

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A família recebeu a orientação de retornar a Sorocaba para regularizar a situação, mas enfrenta novos obstáculos. "Não conseguimos solucionar e fomos aconselhadas a voltar para Sorocaba, agora estamos esperando a assinatura da decisão", completou Carla.

Crise financeira agrava situação familiar

Além da dor do luto e da angústia da espera, a família enfrenta sérias dificuldades financeiras para resolver o problema burocrático. Uma nova viagem de quase mil quilômetros até Sorocaba pode ser necessária, representando um custo proibitivo.

"Se não conseguir, vou ter que ir para Sorocaba de novo, ir na perícia pegar a ocorrência, depois descer para Vitória (ES) e fazer outra ocorrência como se o caso tivesse acontecido em Guarapari. Eu não tenho mais condições financeiras de ir para Sorocaba fazer isso", desabafou a filha da vítima.

A situação se tornou ainda mais dramática com o tempo decorrido: "Minha mãe está na funerária, no frigorífico, tem 14 dias que faleceu. Precisamos sepultar e não estamos conseguindo".

Exigências legais e falta de apoio institucional

O Cemitério Parque Paraíso, em Guarapari, expressou condolências à família, mas reforçou que a Lei dos Registros Públicos exige a certidão de óbito para autorizar o sepultamento. A instituição esclareceu que a emissão do documento é responsabilidade exclusiva do Cartório de Registro Civil.

Apesar das orientações para buscar assistência social em caso de dificuldades financeiras, a família já procurou os serviços municipais de Guarapari sem obter solução para o problema. As secretarias de assistência social de Guarapari e Sorocaba não se manifestaram sobre o caso até o fechamento desta reportagem.

Relembrando o crime brutal

Lígia Ferreira de Souza foi vítima de um feminicídio na madrugada do dia 27 de abril, no Jardim Pelegrino, em Sorocaba. O próprio companheiro acionou o socorro, mas, ao chegarem à residência, os guardas municipais foram recebidos por ele no portão, onde admitiu ter esfaqueado a mulher.

O agressor foi preso em flagrante e o caso registrado como feminicídio. Durante a ação policial, foram apreendidos um facão e uma faca utilizados no crime, evidenciando a violência do ataque que tirou a vida da cozinheira.

A tragédia familiar se amplifica com a burocracia que impede o descanso digno da vítima, transformando o luto em uma prolongada batalha contra entraves documentais que deveriam facilitar, e não dificultar, momentos tão dolorosos.

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