Mulher paraplégica transforma tragédia em força para trabalhar no Carnaval de Olinda
Em meio ao frenesi dos foliões que descem e sobem as históricas ladeiras de Olinda, uma presença inspiradora chama a atenção. Creuza Carla, comerciante e sobrevivente de uma tentativa de feminicídio, vende doces e pirulitos com um objetivo claro: conquistar o sonho da casa própria.
Violência que mudou uma vida
No dia 23 de julho de 2012, Creuza sofreu um ataque brutal do seu ex-namorado, que disparou três tiros contra ela. O resultado foi a perda total dos movimentos das pernas, deixando-a paraplégica. "Sou sobrevivente", afirma com determinação. "Levei três tiros, fiquei paraplégica, mas sou grata a Deus por ter sobrevivido, por poder ver meu filho crescer. Isso é o mais importante."
Superação após a depressão
O período pós-crime foi marcado por profunda depressão. Creuza relata que foi um processo difícil, mas encontrou forças para se reerguer gradualmente. "No início, eu era muito depressiva", reconhece. A virada veio com o apoio incondicional do filho e sua fé renovada. "Com a ajuda de Deus e do meu filho, eu quero viver, quero ser feliz", declara emocionada.
Carnaval como oportunidade
A ideia de aproveitar o Carnaval para juntar recursos surgiu após a pandemia. Neste ano, ela se instalou estrategicamente numa calçada da Ladeira dos Quatro Cantos, um dos pontos mais movimentados da festa. Esta já é sua terceira edição carnavalesca trabalhando como comerciante. "Estou no 3º Carnaval", conta com orgulho.
Seu trabalho é incansável. Durante todos os dias da festa, ela atende clientes que param para comprar seus doces enquanto curtem a folia. Cada venda representa um passo mais perto de seu grande objetivo: sair do aluguel e ter um lar próprio. "Tenho sonho de sair do aluguel e trabalho aqui o Carnaval todo", explica.
Força que inspira
A história de Creuza é um testemunho de resiliência. Mesmo enfrentando as dificuldades de locomoção pelas íngremes ladeiras de Olinda, ela não desiste. Sua fé e a relação com o filho funcionam como motores que a impulsionam diariamente. "Quero viver, quero ser feliz", repete, transformando sua tragédia pessoal em uma lição de superação para todos que cruzam seu caminho durante as festividades.
Sua presença nas ladeiras vai além do comércio simples de doces. Representa a vitória da vida sobre a violência, da esperança sobre o desespero, e serve como lembrete silencioso, porém poderoso, da luta contra o feminicídio e pela reconstrução de vidas destruídas pela agressão.