Censo 2024 do Rio revela mais de 8 mil pessoas em situação de rua; MPF acusa omissão
Rio tem 8.195 pessoas em situação de rua, aponta censo de 2024

Um novo levantamento realizado pela Prefeitura do Rio de Janeiro em 2024 contabilizou 8.195 pessoas em situação de rua na cidade. O número representa um aumento de 4,2% em relação ao censo anterior, que utilizava dados de 2022. Apesar da gravidade dos números, o estudo não foi amplamente divulgado pela administração municipal.

Dados publicados sem alarde e sob questionamento do MPF

O censo de 2024 foi publicado no portal Data Rio, site oficial de dados da prefeitura, porém não houve qualquer menção à pesquisa na página principal do site, que ainda destacava o estudo de 2022. A Secretaria Municipal de Assistência Social, que teve seu orçamento reduzido em R$ 7 milhões, atingindo a menor marca da última década, também não fez referência ao novo levantamento em sua página.

O Ministério Público Federal (MPF) vem solicitando os dados deste censo desde 2024. De acordo com a instituição, os procuradores não receberam qualquer informação até o momento. Uma ação do MPF pede intervenção urgente da Justiça Federal e acusa o governo municipal de grave omissão na política para a população em situação de rua.

Perfil e necessidades da população de rua carioca

O censo traça um perfil detalhado das pessoas abordadas. A região do Centro foi a que concentrou o maior número, com 1.300 pessoas, seguida por Botafogo, com 495. A maioria dos entrevistados é do sexo masculino (mais de 70% estão na faixa de 18 a 49 anos) e 83% se autodeclararam pretos ou pardos.

No que diz respeito à educação, a maioria possui ensino fundamental incompleto. Apenas 16% completaram o ensino médio e 10% declararam não saber ler um bilhete simples. Quando questionados sobre os motivos de estarem nas ruas, a principal causa citada foram conflitos familiares, seguidos por alcoolismo ou uso de drogas.

Para sair das ruas, a maioria apontou a necessidade de emprego (17% citaram moradia e 10%, dinheiro). A insegurança alimentar é uma realidade marcante: 45% dependem de doações para comer, 2% já recorreram ao lixo e mais de 30% ficaram um dia inteiro sem se alimentar na semana anterior à pesquisa.

Discrepância com dados federais e posição da prefeitura

Os números oficiais da prefeitura contrastam fortemente com um levantamento feito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com base no Cadastro Único (CadÚnico) do governo federal. O estudo da UFMG, com dados de 2025, registrou 23.431 pessoas em situação de rua no Rio, quase o triplo da cifra municipal.

Procurada, a prefeitura afirmou que o censo 2024 está publicado no Data Rio desde 2 de janeiro e que se trata de uma ação integrada entre o Instituto Pereira Passos, a Secretaria de Assistência Social e a Secretaria de Saúde, com foco em aprimorar políticas públicas. Sobre a redução orçamentária, a prefeitura disse que todos os serviços e projetos foram mantidos ou ampliados após otimização de recursos. No entanto, não respondeu sobre o atraso na publicação, a falta de divulgação ou o silêncio ao MPF.