Programa de segurança no Rio enfrenta crise de efetivo aos fins de semana
Um levantamento exclusivo obtido pelo RJ2 expõe uma grave deficiência no programa Segurança Presente, iniciativa criada para reforçar o policiamento em bairros do Rio de Janeiro com agentes atuando em seus dias de folga. Os dados revelam que o programa não tem conseguido preencher todas as vagas disponíveis, com uma situação especialmente crítica aos sábados, domingos e feriados.
Diárias pouco atrativas são o principal obstáculo
O motivo central apontado por policiais militares para a baixa adesão é o valor das diárias, considerado insuficiente para compensar o trabalho em períodos de descanso. Um policial militar, que falou sob condição de anonimato, explicou que o pagamento nos fins de semana é idêntico ao de um dia comum, desestimulando a participação. "As pessoas preferem tirar durante a semana e no final de semana ficam em casa. Aí falta efetivo", afirmou.
Laranjeiras: exemplo da vulnerabilidade
Em Laranjeiras, bairro que abriga o Palácio Guanabara, sede do governo estadual, os moradores sentem diretamente o impacto. A fonoaudióloga Tatiana Campos Fernandes relata: "Durante a semana a gente tem realmente um policiamento bem forte, até a noite. Mas nos finais de semana reduz muito e a gente fica mais vulnerável". O técnico de enfermagem Joacir Santos Filho complementa: "É bem menos mesmo. Fica gente não só assaltando, como consumindo drogas".
Os números confirmam essa percepção:
- Em dezembro do ano passado, Laranjeiras teve 794 vagas disponíveis, mas apenas 435 foram ocupadas.
- Outras 359 ficaram ociosas, o que representa 45% do total.
- Em janeiro, o índice de vagas não preenchidas foi de 36%.
Problema se estende por diversos bairros
A alta ociosidade não se limita a Laranjeiras. Outras áreas também registraram percentuais preocupantes:
- Na Lagoa, o índice chegou a quase 40% em dezembro (39,91%) e ficou em 34,53% em janeiro.
- Na Lapa, os números foram semelhantes: 38,21% e 39,18%.
- Em bairros da Zona Sul como Ipanema, Leblon e Botafogo, a taxa variou entre 26% e 36%.
- No Aterro do Flamengo, no Centro e em Copacabana, os índices ficaram abaixo de 30%, mas ainda assim significativos.
Em Copacabana, por exemplo, 336 agentes deixaram de atuar em dezembro e outros 274 em janeiro, período de alta temporada com grande fluxo de turistas e eventos como o Réveillon. Somando apenas dezembro e janeiro, 6.771 vagas ficaram ociosas nos bairros analisados.
Reações políticas e sugestões de melhoria
O deputado estadual Cláudio Caiado (PSD) encaminhou um ofício à Polícia Militar relatando o problema. Ele afirma que moradores têm alertado sobre o esvaziamento das bases: "A gente foi notando, no dia a dia, diversas pessoas nos procurando e alertando para as bases que estavam ficando muito vazias. Isso acaba refletindo no aumento dos crimes".
Entre as sugestões apresentadas pelo parlamentar estão:
- Aumento do valor do Regime Adicional de Serviço (RAS) nos fins de semana.
- Mudanças na distribuição da carga horária dos policiais, para evitar que todas as horas sejam cumpridas apenas em dias úteis.
Expectativa da população por mais segurança
Enquanto isso, a população clama por uma presença policial mais consistente. A servidora Renata Emanuele Vasconcelos Anhon relata: "A gente evita alguns caminhos porque sempre escuta que acontece alguma coisa". Já o aposentado Davi Kestenberg reforça: "A presença dos policiais é fundamental para inibir qualquer tipo de atividade ilegal".
Posicionamento do governo estadual
A Secretaria Estadual de Governo (Segov), responsável pelo programa Segurança Presente, informou que o efetivo pode chegar a 2.300 agentes em todo o estado. A pasta admite que houve, recentemente, queda na adesão de policiais militares para trabalhar nos fins de semana, mas afirma que essa redução não prejudica o policiamento, especialmente na orla e em áreas turísticas, devido ao reforço de efetivo mobilizado pelo comando da Polícia Militar.
Além disso, a secretaria destacou que o governo autorizou a atualização dos valores pagos aos agentes que atuam em turnos extras de serviço, incluindo policiais da reserva. As diárias podem agora chegar a R$ 756, valor R$ 200 maior que o teto anterior, numa tentativa de tornar o programa mais atrativo.
O programa Segurança Presente conta com um efetivo fixo de 916 policiais militares, que atuam de forma voluntária em seus períodos de folga, além de outros agentes participando por meio do RAS, o chamado "bico oficial". No entanto, sem incentivos adequados, a segurança nos bairros cariocas continua em risco, especialmente quando mais necessária.