Baixio: cidade cearense sem homicídios há 10 anos é exceção em estado líder em mortes violentas
Cidade do Ceará sem homicídios há 10 anos desafia estatísticas estaduais

Em um estado que lidera o triste ranking nacional de assassinatos por 100 mil habitantes, uma pequena cidade do interior cearense se destaca como um verdadeiro oásis de paz. Baixio, município com apenas 5.821 habitantes, completa mais de uma década sem registrar nenhum homicídio doloso, feminicídio, latrocínio ou lesão corporal seguida de morte.

Um contraste impressionante com a realidade estadual

Enquanto o Ceará registrou 3.022 assassinatos em 2025, com uma taxa de 32,6 mortes violentas para cada 100 mil habitantes – mais que o dobro da média nacional de 15,97% – Baixio mantém seu histórico imaculado. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública confirmam que a cidade não teve mortes violentas entre 2015 e 2025, período que pode ser ainda maior segundo a Secretaria da Segurança Pública do Ceará, que aponta o último crime violento ocorrido em 21 de outubro de 2010.

A receita do sucesso: três pilares fundamentais

Harley Filho, coordenador da Coordenadoria Integrada e Planejamento Operacional da SSPDS, explica que o segredo de Baixio está em três elementos principais. Primeiro, a população pequena fortalece a ideia de que todo mundo se conhece, criando um ambiente de vigilância comunitária natural. Segundo, o investimento em segurança pública, mesmo com recursos modestos, tem sido eficiente. Terceiro, o trabalho integrado com a polícia da Paraíba, estado vizinho, cria uma rede de proteção regional.

"Se chega alguém de fora, por exemplo, ligeiramente chama a atenção", revela Harley Filho. "Em Baixio, não é diferente: toda e qualquer pessoa estranha já gera essa dúvida e o pessoal faz essa comunicação imediata com os policiais".

Estrutura de segurança modesta mas eficiente

A cidade conta com um destacamento da Polícia Militar, uma viatura e apenas três policiais que atuam em sistema de revezamento para cobrir as 24 horas do dia. Apesar da equipe reduzida, os agentes recebem apoio das cidades vizinhas e mantêm constante contato com profissionais da Paraíba, além de poderem contar com uma base do RAIO instalada em Ipaumirim.

"Todo mundo se conhece, todo mundo respeita e confia na Polícia Militar", afirma o coordenador. "Qualquer dúvida, entram em contato até mesmo no telefone particular do policial".

Prevenção começa nas escolas e nas famílias

Ivana Ferreira Farias, titular da Secretaria de Assistência Social de Baixio, destaca o trabalho intersetorial como chave para os bons resultados. A cidade investe fortemente em políticas de educação, saúde, esporte, lazer e cultura, com foco especial no fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários.

"É um conjunto de fatores, é claro: o trabalho integrado entre as políticas públicas, a atuação em rede, ações de prevenção e, principalmente, o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários", pontua Ivana.

Um dos programas mais importantes é o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, que oferece atividades esportivas, rodas de conversa e ações educativas para jovens, prevenindo situações de vulnerabilidade. A cidade também mantém um trabalho preventivo nas escolas através do PROERD e faz acompanhamento familiar regular, especialmente com mulheres em situação de risco.

Testemunhos de quem vive a segurança na prática

João Pedro, estudante de 20 anos, descreve uma realidade incomum no Brasil atual: "Desde a minha infância nunca tive privação em relação à brincadeira na rua. Sempre foi tranquilo, sempre fui livre". Já Ana Meyrice, agente administrativa de 44 anos, complementa: "Você anda tranquilo, não tem o risco de ser abordado por um assaltante. Aqui na minha rua mesmo, a vizinhança costuma ficar sentada até 23h. As crianças brincam tranquilamente".

Desafios e ameaças no horizonte

Apesar do histórico positivo, Baixio não está completamente imune aos problemas que assolam o Nordeste. Em 2025, o município registrou três tentativas de homicídio e uma morte no trânsito. Mais preocupante ainda foi a operação da Polícia Civil em junho de 2024, que cumpriu 46 mandados judiciais contra uma facção criminosa de origem paraibana que tentava se instalar na região.

César Barreira, sociólogo e coordenador do Laboratório de Estudos da Violência da UFC, alerta que a aparente tranquilidade pode esconder dinâmicas perigosas. "Quando um território tem a atuação de apenas uma facção, é provável que os conflitos e mortes sejam menores. Na hora que chega outra facção é que, provavelmente, começa a haver disputa e homicídios", explica o pesquisador.

Contexto histórico e cultural

Baixio tornou-se município autônomo em outubro de 1956, desenvolvendo-se a partir de uma fazenda na região onde habitavam indígenas da etnia Kariri. A construção do ramal da estrada de ferro da Rede de Viação Cearense em 1922 foi fundamental para seu crescimento. Com forte tradição religiosa – 4.338 dos 5.821 habitantes são católicos apostólicos romanos – a cidade atrai visitantes durante a festa do padroeiro São Francisco em setembro, além do Carnaval e festas juninas.

Um exemplo a ser estudado e replicado

Harley Filho defende que Baixio representa um case de sucesso que merece atenção do Estado para que suas boas práticas possam ser ampliadas para outros municípios. No Ceará, além de Baixio, outras 13 cidades estão há mais de dois anos sem registrar Crimes Violentos Letais Intencionais.

"Acho que o que está dando certo a gente não altera", reflete o coordenador. "Baixio tem um trabalho de prevenção muito forte e a quantidade de policiais está sendo suficiente para a quantidade de população. É um case de sucesso, mas não podemos deixar de apontar que temos 13 municípios sem o registro de CVLIs há mais de dois anos"

Enquanto a Grande Fortaleza concentrou 1.645 homicídios em 2025 – aproximadamente 54% de todas as mortes violentas do estado – Baixio permanece como uma prova de que, mesmo em contextos desafiadores, é possível construir comunidades mais seguras através de trabalho integrado, prevenção e fortalecimento dos laços comunitários.