A Justiça Federal tornou réus o empresário Fabrício de Souza Almeida, sobrinho do ex-governador de Roraima Antonio Denarium (Republicanos), e mais cinco pessoas, incluindo a irmã do ex-governador, Vanda Garcia de Almeida, e o marido dela, Wellington de Oliveira Castro. Eles são acusados de integrar uma organização criminosa que financiava o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, além de lavagem de dinheiro e usurpação de bens da União.
Investigação começou com abordagem policial
A investigação da Polícia Federal teve início em agosto de 2020, quando Fabrício foi parado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Boa Vista. Durante a abordagem, ele mentiu sobre o trajeto da viagem e se identificou como "sobrinho do governador", referindo-se a Antonio Denarium, que estava no cargo na época. Fabrício estava em uma caminhonete com outro homem.
Ao consultar os dados do empresário, os agentes descobriram que ele já havia sido alvo de uma operação por contrabando de diamantes em 2010. Inicialmente, Fabrício afirmou que havia saído de uma fazenda em Iracema, mas a PRF constatou que o veículo partiu de Porto Velho, em Rondônia. As inconsistências levantaram suspeitas de que ele teria ido a Rondônia para negociar minérios extraídos ilegalmente.
Esquema movimentou R$ 64 milhões
A partir do alerta da PRF, a PF abriu inquérito e descobriu que Fabrício operava um esquema de financiamento de garimpo, lavagem de ouro por meio de empresas de fachada e usurpação de bens da União. Segundo a investigação, o grupo movimentou R$ 64 milhões entre janeiro de 2017 e outubro de 2021.
De acordo com a denúncia do Ministério Público Federal (MPF), Fabrício exercia a liderança operacional do esquema, coordenando as ações do grupo. Ele era responsável por articular atividades ilegais, comprar e distribuir materiais como máquinas e combustível, contratar pessoas, incluindo pilotos de aeronaves, e controlar as transações bancárias e o fluxo financeiro.
O esquema funcionava de forma organizada: o grupo captava recursos por meio de empresas de fachada e "laranjas". O dinheiro era usado para pagar pilotos, combustível e máquinas. Após a extração e venda ilegal do minério, os lucros reembolsavam investidores e pagavam integrantes, mantendo o esquema ativo.
Empresas de fachada e "rei do diamante"
Uma das empresas investigadas, registrada como prestadora de serviços de representação comercial, movimentou mais de R$ 11 milhões em pouco mais de três anos, sem possuir empregados, veículos ou endereço comercial efetivo. A empresa pertencia a Fabrício.
Para traçar o histórico de Fabrício com a mineração ilegal, a PF analisou fatos anteriores à abordagem da PRF. Em 2010, ele foi preso na Operação Roosevelt, em Rondônia, com 161 quilates de diamantes e R$ 13 mil. Além disso, mensagens em redes sociais indicavam envolvimento com garimpo. Uma publicação de Wellington, marido de Vanda, parabenizava Fabrício em inglês, chamando-o de "the diamond king" (o rei do diamante).
Outros réus e apreensões
Além de Fabrício e Vanda, também se tornaram réus João Alisson de Sousa Alencar Lima, Paulo Pessoa Silva, Rafael Silva Souza e Wellington de Oliveira Castro. As penas pelos crimes podem ultrapassar 20 anos de prisão. O MPF pediu ainda que todos paguem indenização mínima de R$ 500 mil por danos morais coletivos aos indígenas Yanomami.
Durante as investigações, foram apreendidos na casa de Fabrício equipamentos típicos de garimpo, como bombas hidráulicas, motores e uma resumidora de cassiterita, além de uma balança de precisão e um caderno com anotações sobre voos, pagamentos a pilotos e quantidades de ouro comercializadas. Também foram apreendidos cinco mil quilos de minério semelhante a cassiterita na casa da mãe de um dos investigados.
Nenhum dos denunciados possuía autorização da Agência Nacional de Mineração (ANM) para extrair, transportar ou comercializar minérios.
Nota de Denarium
Em nota, Antonio Denarium afirmou: "Este caso ocorreu com membros que possuem famílias distintas da minha. Minha família é composta de minha esposa e meus três filhos, apenas. Vivo com eles em plena harmonia e não tenho gestão nem responsabilidade sobre atos de parentes que vivem em lares diferentes do meu, com atitudes de responsabilidade de cada um deles e, se algum ilícito foi cometido por parte de alguns deles, devem ser responsabilizados nos termos da lei."



