Vítima brasileira descreve rede de aliciamento para Jeffrey Epstein com conexões em São Paulo
Uma mulher brasileira, identificada como Ana para proteger sua identidade, revelou à BBC News Brasil como foi aliciada por uma cafetina em São Paulo para encontros com o bilionário americano Jeffrey Epstein, acusado de explorar sexualmente mulheres e meninas. Seu relato detalha eventos na capital paulista e viagens internacionais, corroborado por documentos do Departamento de Justiça dos EUA e uma investigação do Ministério Público Federal (MPF) no Brasil.
Recrutamento enganoso e controle de documentos
Ana saiu de casa aos 16 anos para seguir o sonho de ser modelo, trabalhando com uma agência no Sul do Brasil. Após um ano sem oportunidades, foi convidada por uma mulher, chamada de Lúcia na reportagem, para morar em São Paulo com outras meninas e ter chances na maior cidade do país. Com o apoio dos pais, ela viajou pouco antes de completar 18 anos, mas logo descobriu que a promessa de carreira era falsa.
Lúcia reteve seus documentos sob o pretexto de fazer um passaporte e anunciou uma dívida pela passagem aérea e book de fotos. Ana percebeu que estava sendo negociada para prostituição, com um dos clientes sendo Jeffrey Epstein. Ela descreve encontros em um hotel de luxo no Jardim Paulista, onde Epstein a escolheu entre outras garotas, e participação em uma festa na região da avenida Brigadeiro Faria Lima.
Viagens internacionais e envolvimento de figuras-chave
Após o primeiro encontro, Epstein convidou Ana para acompanhá-lo a Paris, combinando com Jean-Luc Brunel, agente de modelos francês acusado de aliciar meninas para o bilionário. Ana apresentou um passaporte com visto americano de negócios emitido em nome da Karin Models New York, agência de Brunel, que ela nunca visitou. O visto foi cancelado após seis viagens aos EUA, quando autoridades desconfiaram de seu trabalho.
Durante a viagem a Paris, Ana conheceu Ghislaine Maxwell, companheira de Epstein, e testemunhou interações que coincidem com e-mails do arquivo do Departamento de Justiça dos EUA. Ela relata que Epstein pagou US$ 10 mil a Lúcia por seus serviços, mas só quitou parte do valor, gerando cobranças. Um depoimento de ex-funcionária de Brunel menciona uma brasileira irritada com uma dívida de US$ 50 mil, alinhando-se ao relato.
Relacionamento complexo e percepção de proteção
Ana desenvolveu uma relação com Epstein por cerca de quatro meses, viajando para Paris novamente e para a ilha particular do bilionário no Caribe. Ela descreve Epstein como "um rico fanfarrão" que gostava de meninas mais novas, mas a tratava bem, fornecendo dinheiro e aulas de inglês. Em um episódio, ele recusou um pedido de Brunel para ter relações sexuais com Ana, dizendo "você é minha", o que a fez sentir protegida.
No entanto, ao encontrar Epstein na cama com outra garota brasileira, ela percebeu que havia muitas mulheres envolvidas. Após decidir parar de mentir para os pais, Ana encerrou o contato, refletindo que Epstein a salvou de Lúcia, mas reconhece a sorte em comparação com outras vítimas. "Não tenho intenção de dizer que ele era bonzinho", afirma, expressando solidariedade às meninas que sofreram mais.
Enquadramento como tráfico de pessoas e investigação do MPF
O auditor-fiscal do trabalho Maurício Krepsky analisou o caso e afirmou que ele poderia ser enquadrado como tráfico de pessoas para fins de trabalho escravo, mesmo em contexto de exploração sexual. Elementos como coação, engano e transporte para exploração configuram o crime, que não prescreve segundo normativas internacionais. O MPF abriu uma investigação para apurar uma possível rede de aliciamento de Epstein no Brasil, com a procuradora Cinthia Gabriela Borges destacando a importância do depoimento das vítimas.
Borges esclarece que as mulheres que mantiveram contato com Epstein não são investigadas, mas sim pessoas especializadas em recrutar para fins sexuais. A reportagem da BBC revelou que Epstein financiou modelos brasileiras e teve conexões com um "grande grupo brasileiro", aumentando a pressão por justiça. Ana conclui: "Acredito na justiça divina, e dela ninguém escapa, nem morrendo."
