Mãe de vítima anterior questiona eficácia da Justiça após morte de adolescente no DF
O corpo de Rodrigo Castanheira, adolescente de 16 anos que faleceu após 16 dias em coma induzido, foi enterrado neste domingo no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul do Distrito Federal. A tragédia reacendeu críticas sobre a atuação das autoridades, especialmente após revelações de que o agressor, o piloto Pedro Arthur Turra Basso, já era investigado por agressões anteriores.
"Se tivessem olhado com atenção para o caso do meu filho, talvez esse outro filho estivesse vivo"
Amanda Azevedo, mãe de um jovem de 18 anos agredido pelo mesmo piloto em junho de 2025, enviou uma carta emocionada ao g1 questionando a eficiência do sistema de justiça. Seu filho foi atacado em uma praça de Águas Claras seis meses antes da morte de Rodrigo, mas o caso foi tratado como lesão corporal leve e não teve acompanhamento adequado.
"Meu filho registrou boletim de ocorrência e realizou tomografias que, graças a Deus, não apontaram nada grave. Ainda assim, eu não dormia todas as vezes que ele saía de casa. Seis meses se passaram e nunca fomos chamados à delegacia", escreveu Amanda na carta direcionada a Rodrigo Castanheira.
Detalhes da agressão anterior revelam padrão de violência
Segundo o relato da mãe e da vítima, o ataque ocorreu quando o jovem estava sozinho em uma praça de Águas Claras. Pedro Turra chegou acompanhado de quatro amigos, conversaram por cerca de dez minutos, e quando a vítima virou de costas para ir embora, foi surpreendida com um soco nas costelas.
"Dois carros se aproximaram, e cinco homens saltaram, pegando-o de surpresa. Houve uma discussão e, em um suputo ato de pacificação, apertaram a mão dele. Mas, ao virar de costas, meu filho levou um soco, foi derrubado no chão e foi covardemente agredido", narrou Amanda Azevedo.
O jovem foi derrubado no chão, imobilizado com um golpe conhecido como "mata-leão" e levou diversos socos no rosto antes que os amigos do agressor interviessem após aproximadamente cinco minutos.
Resposta policial gera questionamentos
O delegado-chefe da 21ª Delegacia, Josué Ribeiro, explicou que em casos de menor potencial ofensivo as vítimas não são chamadas novamente a menos que haja novidades significativas. "A versão da vítima já estava registrada e não precisava mais da presença deles na delegacia", afirmou.
A Polícia Civil tentou localizar Turra após o boletim de ocorrência, mas não o encontrou. O piloto só prestou depoimento em 27 de janeiro, após a repercussão do caso envolvendo Rodrigo Castanheira, quando procurou a delegacia para pedir orientação sobre ameaças que vinha recebendo.
Morte de Rodrigo Castanheira e prisão do agressor
Rodrigo Castanheira faleceu neste sábado após 16 dias internado em estado gravíssimo. A agressão ocorreu em 23 de janeiro durante uma briga em Vicente Pires. O adolescente levou uma sequência de socos, caiu e bateu a cabeça na porta de um carro, sofrendo traumatismo craniano e uma parada cardiorrespiratória de 12 minutos.
Pedro Turra foi inicialmente preso e liberado após pagar fiança de R$ 24,3 mil, mas a Justiça decretou sua prisão preventiva dias depois. Atualmente, ele está detido no Centro de Detenção Provisória da Papuda em cela individual após relatar ameaças dentro da unidade. O STJ negou o pedido de habeas corpus apresentado pela defesa.
Novas denúncias surgem contra o piloto
A Polícia Civil investiga agora quatro denúncias envolvendo Pedro Turra:
- Agressão em janeiro contra Rodrigo Castanheira
- Briga em praça de Águas Claras em junho de 2025
- Denúncia de forçar menor de idade a ingerir bebida alcoólica
- Agressão contra homem de 49 anos em briga de trânsito
A defesa do piloto divulgou nota afirmando que a família "lamenta profundamente o falecimento de Rodrigo Castanheira" e que Pedro manifestou "profundo arrependimento" pelos fatos. Em entrevista anterior, a defesa havia classificado o caso registrado em junho como apenas "vias de fatos".
Reflexão sobre sociedade e sistema de justiça
Na carta, Amanda Azevedo, que se identifica como psicóloga, expressa sua visão sobre as falhas do sistema: "Como psicóloga, sinto tristeza por viver em uma sociedade adoecida, onde dinheiro, aparência e status são colocados acima da maternidade, da educação e da saúde mental. O trabalho da polícia neste país é enxugar gelo: eles prendem, e a Justiça solta mediante fiança".
O advogado da família de Rodrigo Castanheira, Albert Halex, afirmou nas redes sociais que considera "inadmissível" a forma como o adolescente foi morto, destacando uma "maldade revoltante" e criticando pessoas que agem como "donas do mundo", impulsionadas por sensação de poder e impunidade.
O caso continua tramitando no Tribunal de Justiça do Distrito Federal, enquanto a sociedade questiona se uma investigação mais rigorosa das agressões anteriores poderia ter prevenido a tragédia final.



