Um médico de 28 anos recebeu alta hospitalar nesta segunda-feira (16), após nove dias internado no Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo, vítima de um violento ataque a facadas que ocorreu após a passagem de blocos carnavalescos perto da estação Higienópolis-Mackenzie do metrô. O profissional de saúde, que atua como residente em endocrinologia no próprio HC, sofreu cortes profundos no pescoço e uma perfuração no pulmão, necessitando de quatro dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e de cirurgia para estancar hemorragias.
Agressão violenta na Rua da Consolação
O ataque ocorreu na noite do último dia 7 de fevereiro, em frente a um prédio residencial na Rua da Consolação, a aproximadamente 30 metros da estação de metrô Higienópolis-Mackenzie, na Linha 4-Amarela. O médico e seu namorado, um advogado de 27 anos, voltavam de um restaurante na Vila Madalena, Zona Oeste da capital, e não haviam participado de nenhum bloco carnavalesco anteriormente.
Segundo o relato do médico em áudio enviado ao g1, o casal desceu do metrô e começou a caminhar pela rua, que estava escura devido a problemas na iluminação pública. "A gente começou a andar pela rua. Havia bastante gente seguindo no mesmo sentido e, depois da estação, eu ouvi o namorado gritar ao lado dele. Quando eu virei, ele tinha sido puxado para trás por alguém", descreveu a vítima.
Suspeita de crime homofóbico
O médico contou que, em seguida, foi esfaqueado na região do pescoço por um dos agressores, sem que houvesse qualquer anúncio de assalto. "A gente não teve tempo de reação, nem de entender o que estava acontecendo. A gente até pensou na possibilidade de um ato de homofobia", afirmou. O advogado também foi atingido com um corte na cabeça, mas não precisou de internação hospitalar.
Os agressores, jovens não identificados, fugiram do local sem roubar qualquer pertence das vítimas, reforçando a suspeita de que o crime tenha sido motivado por discriminação. Alguns foliões que ainda estavam na região prestaram os primeiros socorros ao casal, que foi atendido por policiais militares que passavam pelo local.
Recuperação e investigações em andamento
Após a alta hospitalar, o médico gravou um vídeo agradecendo à equipe médica do HC. "Me sentindo muito melhor depois de tudo o que aconteceu. Eu preciso agradecer imensamente à equipe do pronto-socorro, do centro cirúrgico, da UTI, da enfermaria porque eles foram essenciais no processo de recuperação", declarou.
A advogada das vítimas, Ana Clara Valone, emitiu uma nota classificando o caso como um "grave ataque sofrido por dois jovens" e destacando que "não se descarta a hipótese de crime motivado por discriminação, inclusive por orientação sexual".
Polícia analisa imagens e depoimentos
O 4º Distrito Policial (DP) da Consolação investiga o caso como tentativa de homicídio e está analisando imagens de câmeras de monitoramento da região que possam ter registrado o ataque. A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou, por meio de nota, que a equipe policial "permanece empenhada em diligências, na coleta de depoimentos das vítimas e testemunhas, analisa imagens e aguarda laudos periciais com o objetivo de identificar e responsabilizar os envolvidos no crime".
A polícia também apura se os agressores participaram de algum bloco carnavalesco antes do crime. O g1 procurou a ViaQuatro, concessionária que administra a Linha 4-Amarela, para comentar o assunto, mas ainda aguarda posicionamento.
O médico detalhou ainda as lesões sofridas: "Teve lesão dessas duas veias, que é a veia jugular interna e a braquicefálica, e lesão do pulmão à esquerda". Ele ressaltou a importância do rápido atendimento: "Eu já estava ficando muito cansado, com dificuldade para respirar. Então, foi essencial que eles conseguiram me trazer rapidamente para cá [o hospital]".