Deputado Thiago Rangel preso pela PF reage com figurinha após foto de dinheiro
Deputado Thiago Rangel preso pela PF reage com figurinha

O deputado estadual Thiago Rangel (Avante) foi preso pela Polícia Federal nesta terça-feira (5) durante a 4ª fase da Operação Unha e Carne. De acordo com a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o parlamentar respondeu com uma figurinha com sua própria imagem após receber, em uma conversa de WhatsApp, fotos de maços de dinheiro em espécie. A reação foi interpretada pela PF como um sinal de anuência à movimentação registrada na conversa.

Investigação aponta esquema de direcionamento de obras

As mensagens analisadas pela PF e reproduzidas na decisão fazem parte do conjunto de provas que indicam a existência de uma articulação entre o deputado, aliados e empresários para direcionamento de obras públicas ligadas à Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro. Segundo a PF, as mensagens mostram tratativas sobre liberação de obras, escolha de empresas e fluxo de recursos.

Em uma das conversas destacadas, o deputado Thiago Rangel troca mensagens com seu operador financeiro, Luis Fernando Passos de Souza, sobre a liberação de obras públicas e a necessidade de articulação política para viabilizar contratos. A análise mostra que os dois discutem uma lista de obras em escolas estaduais e os próximos passos para destravar sua execução, com menção direta à necessidade de aval de uma figura identificada como “Rodrigo” — referência a Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, apontado como peça-chave para viabilizar contratos.

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Diálogos revelam planejamento prévio

Em um dos trechos citados, Luis Fernando indica que seria preciso aguardar uma definição superior para avançar com os contratos. “Fala ai deputado, como é que está? Tudo bom? E ai, conseguiu alguma definição com o Rodrigo? Ficou tudo acertado? Alguma coisa desandou?”, dizia Luis Fernando em áudio. “E aquela situação das obras, lá, vai liberar? Eu estou doido para dar uma calçada em Nédio, mas eu preciso do sinal verde seu”, disse.

A Polícia Federal interpreta que a referência a “Rodrigo” diz respeito a Rodrigo Bacellar, apontado como alguém com influência sobre a liberação das obras. Já o outro nome citado é Nédio Gabriel de Souza Gonçalves, citado na decisão do STF como um dos empresários ligados ao grupo investigado.

Na sequência dessas conversas, Rangel encaminhou ao operador um documento com relação de possíveis licitações para obras em escolas estaduais, contendo valores, empresas participantes e unidades de ensino envolvidas. Para os investigadores, o documento indica que o grupo já trabalhava com um planejamento prévio das contratações.

Movimentação financeira suspeita

Outro diálogo relevante, de 17 de setembro de 2024, reforça esse cenário. Nele, Rangel e Luis Fernando discutem a necessidade de alinhar interesses com empresários e garantir o avanço de obras consideradas estratégicas. Naquele mesmo dia, Luis informa em mensagens: “Contrato assinado... Saque de 550 para sexta...” e “Depois 700 + 750”, seguido de confirmação com um simples “Ok!”.

Segundo a PF, as mensagens sugerem que algum possível contrato com o ente público possa ter sido formalizado, com o fornecedor se comprometendo a fazer repasses por meio de saques em espécie. Minutos mais tarde, Thiago Rangel responde: “Ta bom. Bota isso com você guardado, entendeu? Se precisar, beleza, se não precisar, deixa rodar”, disse em áudio. A conversa é interpretada pelos investigadores como parte de um processo contínuo de articulação entre o núcleo político e o núcleo financeiro do grupo, reforçando a suspeita de ocultação de recursos ou gestão paralela de valores em espécie.

Conexão com empresas e influência na estrutura pública

A decisão também aponta indícios de movimentação financeira associada ao esquema suspeito. Um dos nomes citados é Marcos dos Santos Barcelos Junior, sócio administrador da empresa Incrementum Construções Prediais e Obras de Urbanização Ltda, apontada como uma das empresas citadas no documento enviado por Thiago Rangel a Luis Fernando, relacionado a procedimentos licitatórios para obras em escolas estaduais.

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Além disso, a investigação aponta ingerência direta de Thiago Rangel na estrutura administrativa da educação estadual, especialmente na Diretoria Regional Noroeste — área de influência política do parlamentar. A nomeação de Júcia Gomes de Souza Figueiredo como diretora regional de educação teria ocorrido por indicação direta de Rangel. Em mensagem enviada pelo deputado à servidora, ele afirma: “Júcia, continua aí do jeito que você tem que estar, tá ok? Tudo que acontecer dentro da regional eu quero saber. Já avisei ao Marcelo agora aqui, eu não tenho que dar satisfação a ninguém. Porque o deputado sou eu, a indicação é minha e quem manda sou eu.”

Para a PF, o conteúdo da mensagem evidencia a relação política entre os dois e sugere um nível de subordinação funcional e alinhamento direto com o parlamentar, fora da estrutura formal da administração pública.

O que dizem os citados

A defesa de Thiago Rangel negou que o parlamentar tenha cometido qualquer crime e afirmou que irá prestar todos os esclarecimentos ao longo do processo. A vereadora Thamires Rangel, filha do deputado, disse que não houve caixa dois em sua campanha e que as contas foram aprovadas pelo Tribunal Regional Eleitoral. A Secretaria Estadual de Educação informou que está revisando todos os contratos de obras em escolas. Já a Alerj declarou que está à disposição para colaborar com o esclarecimento dos fatos. A reportagem procurou as defesas de Rui Bulhões e Rodrigo Bacellar, mas não houve resposta até a última atualização. Os demais citados não foram localizados.