Tragédia familiar de Peixoto Gomide: político homenageado em SP matou a filha antes do casamento
O nome Peixoto Gomide é amplamente reconhecido em Itapetininga, no interior de São Paulo, onde ele atuou como advogado e político influente no início do século XX. Sua trajetória pública lhe rendeu homenagens em uma das principais vias do município, além de uma escola centenária e uma praça com seu busto. No entanto, por trás dessas honrarias, esconde-se uma história trágica e pouco conhecida: o político assassinou sua própria filha, Sophia, em 1906, por não aceitar seu noivado com um promotor público.
Escândalo na elite paulista e proposta de mudança
O caso ganhou destaque recentemente após a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Municipal de São Paulo aprovar, na quarta-feira (11), um projeto de lei que propõe alterar o nome da Rua Peixoto Gomide, localizada nos bairros Bela Vista e Jardim Paulista, para Rua Sophia Gomide. A iniciativa, de autoria das vereadoras Silvia Ferrraro (PSOL) e Luna Zarattini (PT), busca promover uma reparação histórica e dignificar a memória da jovem vítima. O projeto ainda precisa passar por votação no plenário da Casa.
Detalhes do crime e impacto social
Em 20 de janeiro de 1906, Peixoto Gomide tirou a vida de sua filha Sophia, de 22 anos, dentro da residência da família na Rua Benjamin Constant, em São Paulo. Segundo o professor Milton Cardoso, que estudou a história da família, o crime foi motivado pela rejeição do noivado de Sophia com o poeta e promotor público Manuel Baptista Cepelos. O casamento estava marcado para ocorrer uma semana depois. O episódio abalou profundamente a sociedade paulistana da época, com ampla cobertura nos jornais e um funeral lotado no Cemitério da Consolação.
Curiosamente, apenas seis dias após a tragédia, uma comissão em Itapetininga solicitou homenagens póstumas a Peixoto Gomide, resultando na criação da Escola Complementar Dr. Peixoto Gomide, hoje um patrimônio histórico. A denominação oficial ocorreu em 1922, durante as celebrações do centenário da Independência do Brasil, refletindo a valorização de sua trajetória pública, apesar do fim trágico de sua vida.
Motivações e consequências do feminicídio
Em sua pesquisa, Milton Cardoso citou o livro "Diário Secreto", de Humberto de Campos, que detalha a motivação do crime. Segundo a obra, Sophia confessou ao pai que já havia se entregado a Cepelos, levando Peixoto Gomide a um desespero que resultou no assassinato e em sua tentativa de suicídio. Cepelos, ao saber do ocorrido, também tirou a própria vida. Cardoso ressaltou que o caso repercutiu nacionalmente devido à posição política de Peixoto Gomide, e muitas pessoas que estudaram na escola homônima desconheciam essa versão dos fatos.
Thais Maria Souto Vieira, mestre em estudos culturais e cientista social, explicou que, na época, o crime pode ter sido visto como um "crime de honra" sob valores patriarcais, mas hoje seria classificado como feminicídio. Ela destacou a importância de debates sobre mudanças nos nomes de ruas e monumentos, impulsionados por movimentos sociais e novos olhares históricos que questionam homenagens a figuras com passados violentos.
Legado educacional e reflexões atuais
Fundada em 1894, a Escola Estadual Peixoto Gomide é uma das mais antigas de São Paulo, representando um marco na educação pública do interior paulista. Rodrigo Almeida da Silva, diretor da instituição, afirmou que a escolha do nome refletia o reconhecimento da contribuição de Peixoto Gomide para o desenvolvimento educacional, embora sua vida tenha terminado de forma trágica. Com 131 anos de existência, a escola continua a ser um símbolo de tradição, mesmo diante das discussões sobre sua denominação.
Em Itapetininga, a proposta de renomear a rua em São Paulo reacendeu conversas sobre como a sociedade lida com a memória de figuras históricas. Thais Vieira enfatizou que os moradores frequentam espaços públicos nomeados em homenagem a indivíduos que podem ter cometido crimes hediondos, e que as correntes contemporâneas de estudos históricos incentivam uma reflexão crítica sobre esses monumentos. A mudança, se aprovada, simbolizaria um passo em direção a uma memória mais justa e inclusiva.



