Tenente-coronel preso por feminicídio se descrevia como 'macho alfa' e exigia esposa 'submissa'
Antes de ser preso na quarta-feira (18) sob a acusação de matar a soldado Gisele Alves com um tiro na cabeça, o marido dela, o tenente-coronel Geraldo Neto, se descrevia como um "macho alfa" e cobrava que a esposa fosse "fêmea beta obediente e submissa". É o que mostram mensagens de WhatsApp trocadas entre o oficial e a soldado da Polícia Militar (PM) de São Paulo, que fazem parte da investigação da Polícia Civil.
Crime ocorreu em fevereiro no apartamento do casal no Brás
Os crimes de feminicídio e fraude processual foram cometidos em 18 de fevereiro no apartamento do casal, localizado no Brás, região central da capital paulista. Ainda na quarta-feira, a Justiça comum aceitou a denúncia do Ministério Público (MP) e tornou Geraldo réu no processo. O Poder Judiciário também concordou com o pedido de prisão preventiva do oficial, feito pelo MP e pela Polícia Civil, que foi decretado.
Geraldo já havia sido preso na mesma manhã por decisão da Justiça Militar, a pedido da Corregedoria da Polícia Militar. Ele está detido no presídio militar Romão Gomes, na Zona Norte de São Paulo.
Mensagens revelam perfil autoritário e controlador
Para a acusação, ele matou a esposa por ciúmes e possessividade. As mensagens de WhatsApp acessadas pela reportagem demonstram um perfil autoritário e controlador de Geraldo sobre Gisele. "Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa. Com amor, carinho, atenção e autoridade de Macho Alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser", escreveu o coronel.
O oficial condenava a independência dela, proibindo-a, por exemplo, de cumprimentar outros homens e de vestir roupas justas. "Não cumprimentar homens com beijo no rosto e abraços", escreveu Geraldo. "Lugar de mulher é em casa cuidando do marido e não na rua caçando assunto" e "Rua é lugar de mulher solteira a procura de macho."
Regras impostas e cobrança de relações sexuais
Em outra mensagem, ele impõe regras à vítima: "Enquanto vc estiver casada comigo e vivendo na minha casa, na minha comanda, as coisas serão do meu jeito... Mulher casada comprometida e que o marido é o único provedor do lar tem regras a cumprir", escreveu. "Se você quer ter liberdade, não fique casada" e "são as minhas regras e do meu jeito".
Alegando sustentar a casa, Geraldo cobrava que a esposa mantivesse relações sexuais com ele. "Eu contribuo com o dinheiro, sou o provedor. Você contribui com carinho, atenção, amor e sexo". Quando Gisele alegou que o marido havia deixado de ser "príncipe", "cavalheiro, romântico", o coronel respondeu que era "mais que um príncipe". Escreveu "Sou Rei, Religioso, Honesto, Trabalhador, Inteligente, Saudável, Bonito, Gostoso, Carinhoso, Romântico, Provedor, Soberano".
Laudos descartam suicídio e sustentam feminicídio
Segundo a acusação, laudos periciais, reprodução simulada e mensagens extraídas do celular indicam que Geraldo segurou a cabeça de Gisele e atirou nela com a arma dele. Descartando assim a tese de suicídio e sustentando a de feminicídio. Na sequência, ainda de acordo com o MP, o oficial teria manipulado a cena do crime para simular suicídio, colocando a arma na mão da vítima, escondendo o estojo deflagrado e tomando banho para eliminar vestígios, o que também fundamenta a acusação de fraude processual.
Processo deve seguir na Justiça comum com possível indenização
Futuramente, a Justiça comum e a Justiça Militar decidirão quem será responsável por julgar o caso. Como o feminicídio é considerado crime doloso contra a vida e não um crime militar, a tendência é que o processo siga na Justiça comum. Nesse caso, o oficial poderá ser julgado pelo Tribunal do Júri, onde sete jurados decidirão se ele deve ser condenado ou absolvido.
A Promotoria pediu ainda que, em caso de condenação, seja fixada indenização mínima de R$ 100 mil a ser paga aos familiares da vítima. Na denúncia, o MP afirma que o oficial matou Gisele "por razões da condição do sexo feminino", no contexto de violência doméstica, por motivo torpe e com recurso que dificultou a defesa — o que caracteriza o crime de feminicídio.
Primeiro caso de oficial da PM preso por feminicídio desde 2015
Na manhã da quarta, o Tribunal de Justiça Militar determinou a prisão do tenente-coronel para garantir a ordem pública, a instrução criminal e a preservação da hierarquia e disciplina, já que ele é oficial e a vítima, subordinada na corporação. Geraldo foi detido em um imóvel em São José dos Campos, no interior paulista.
A prisão ocorre em meio a mudanças recentes na legislação sobre feminicídio. Em 2024, a Lei 14.994 transformou o crime em tipo penal autônomo, com pena de 20 a 40 anos de prisão e tramitação prioritária. Segundo o secretário-executivo da Secretaria da Segurança Pública (SSP), coronel Henguel Pereira, este é o primeiro caso envolvendo um oficial da Polícia Militar de São Paulo preso por feminicídio desde 2015, quando o crime passou a ser previsto na legislação brasileira.
Defesa nega crime e questiona competência da Justiça Militar
A defesa nega o crime e questiona a competência da Justiça Militar, argumentando que o caso deve ser analisado pela Justiça comum. Em nota, o escritório de advocacia Malavasi Sociedade de Advogados, que faz a defesa de Geraldo Neto, afirmou que "a defesa encontra-se estarrecida pela manutenção da competência de ambas as jurisdições" e que "já ajuizou Reclamação perante o STJ contra o decreto oriundo da Justiça castrense".
O escritório também reclamou da divulgação de informações da vida privada do acusado, afirmando que "no momento oportuno, sua equipe jurídica irá reprochar toda e qualquer divulgação ou interpretação que venha vilipendiar tais direitos". A defesa reiterou sua confiança na atuação das autoridades e que o tenente-coronel aguarda a completa elucidação dos fatos.



