Mensagens da PF desvendam negociações de propina com apartamentos luxuosos entre banqueiro e ex-presidente do BRB
A Polícia Federal obteve acesso a uma série de mensagens de celular que revelam negociações diretas entre o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. As conversas, descobertas nos aparelhos dos próprios investigados, mostram tratativas para o recebimento de imóveis de luxo em Brasília e São Paulo como contrapartida por operações financeiras entre as instituições.
Operações financeiras e alertas ignorados
As negociações entre o Banco Master e o BRB tiveram início no segundo semestre de 2024, quando o banco controlado por Daniel Vorcaro passou a vender carteiras de crédito ao BRB como forma de captar recursos. Conforme a investigação avançou, essas operações se intensificaram significativamente, mesmo diante de alertas internos e questionamentos sobre a qualidade dos ativos adquiridos pelo banco público.
A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que autorizou a operação, não especifica as datas exatas em que as mensagens foram trocadas. No entanto, a PF afirma que os diálogos não apenas demonstram uma proximidade indevida entre o ex-presidente do BRB e o banqueiro, mas também revelam um esquema para viabilizar a fabricação de carteiras de crédito fictícias do Master ao BRB.
Diálogos revelam negociação de imóveis como pagamento
Em um trecho das mensagens, Paulo Henrique Costa relata a Vorcaro como foi a visita da esposa dele aos apartamentos de luxo oferecidos pelo dono do Master:
- Paulo Henrique: Estive no outro hoje de manhã. A esposa ainda está meio cismada. Seria ótimo olhar outro para construir uma referência.
- Daniel Vorcaro: Por quê?
- Paulo Henrique: Hoje estava com a região toda fechada. Seria bom dar o parâmetro.
- Daniel Vorcaro: Ah tá. Esse outro é uma cobertura. Já pensando trazer família.
- Paulo Henrique: Eu venho na frente mesmo e elas vêm depois. Boa.
- Daniel Vorcaro: Vale a pena ver.
No mesmo diálogo, Daniel Vorcaro menciona um gargalo de R$ 300 milhões, sem que o documento da PF explique a que se refere este valor específico. "Outra coisa, quando tiver um tempinho aí final de semana, veja se conseguimos falar. Esta semana estou com um gargalo de 300mm na quarta, queria bolar contigo o que acha que poderíamos conseguir fazer", diz Vorcaro.
"Preciso dele feliz": a pressão por satisfação
Na sequência das conversas, Daniel Vorcaro escreve para a corretora de imóveis que estava mostrando os apartamentos a Paulo Henrique, deixando claro a importância de satisfazer o executivo do Banco de Brasília: "Preciso dele feliz". A PF interpreta essa frase como uma evidência clara de que os imóveis serviam como moeda de troca para garantir benefícios nas operações financeiras.
Em outra troca de mensagens, há fortes indícios de que Paulo Henrique e Daniel Vorcaro entraram em acordo sobre quantos imóveis luxuosos seriam necessários para cobrir a atuação do então dirigente do BRB a favor do Banco Master. Os dois citam nominalmente empreendimentos de alto padrão em São Paulo, como o Casa Lafer e o Heritage, discutindo qual seria a melhor opção.
Cobranças e cumprimento de acordos
A Polícia Federal também encontrou mensagens em que Paulo Henrique cobrou de Vorcaro a conclusão da negociação por imóveis e, depois disso, deixou claro que estaria cumprindo a parte dele no acordo. "Desculpe dar trabalho. É que estou focado na agenda que combinamos e fico em cima de todos os assuntos até resolver", disse Paulo Henrique. Vorcaro respondeu: "Nada. Isso não é trabalho. Eu sou resolvedor de problemas (risos)".
Em um momento crucial, Paulo Henrique afirmou: "Estou tratando de carteira de outro lado", referindo-se claramente às negociações de carteiras de crédito que o BRB costumava comprar do Master. Daniel Vorcaro, por sua vez, perguntou se Paulo Henrique ainda teria "interesse" no negócio e lembrou a parceria entre eles, mencionando que teriam "um negócio de continuidade" e "centenas de ajustes ao longo da trajetória".
Estrutura para ocultar fraudes e envolvimento de advogado
Com o avanço das negociações, Vorcaro procurou o advogado Daniel Monteiro, que, segundo a PF, era o responsável por formalizar as operações para ocultar fraudes financeiras. "Eu preciso assinar e pagar hoje. Os imóveis Paulo", disse Daniel Vorcaro em uma mensagem direta.
A PF afirma que, para seguir com o esquema de empresas de fachada montado para ocultar a real propriedade dos imóveis, Daniel Monteiro pediu diretamente a Vorcaro que indicasse a pessoa que figuraria como diretor das empresas. "A documentação está pronta. Só falta confirmar imóveis e valores. Vou te enviar a seguir para você validar. Definirmos quem será o diretor das sociedades que comprarão os imóveis. Por favor, você tem alguém que possamos usar (para não misturar com o restante das estruturas que temos)?", questionou o advogado.
Defesas se manifestam e caso segue para o STF
O advogado de Paulo Henrique Costa, Cléber Lopes, afirmou que o ex-presidente do BRB não cometeu nenhuma irregularidade: "Não há notícia que ele tenha praticado qualquer fato que pudesse atentar contra a instrução criminal, contra a ordem pública, contra a aplicação da lei penal, de maneira que a defesa considera em um primeiro momento a prisão absolutamente desnecessária. A defesa continua firme na convicção de que o Paulo Henrique não praticou crime algum".
A decisão que autorizou a operação será julgada pela Segunda Turma do STF, em plenário virtual, a partir da próxima quarta-feira (22). A defesa do ex-governador Ibaneis Rocha afirmou que os diálogos entre Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa reforçam que Ibaneis não interferiu nas operações do BRB e que garantiu autonomia para a área técnica da instituição. A defesa de Daniel Monteiro afirmou que ele sempre agiu de forma técnica e não participou de atividades alheias ao exercício profissional. A defesa de Daniel Vorcaro não se manifestou até o momento.



