Operação Mederi: PF investiga desvio de recursos na saúde do RN; prefeito de Mossoró é alvo
PF investiga desvio de recursos na saúde do RN; prefeito de Mossoró é alvo

Operação Mederi: PF investiga esquema de desvio de recursos na saúde do Rio Grande do Norte

A Polícia Federal (PF) deflagrou uma megaoperação no Rio Grande do Norte, batizada de Mederi, para investigar um suposto esquema de desvio de recursos públicos federais e fraudes em processos de licitação na área da saúde. A operação, realizada na última terça-feira (27), cumpriu 35 mandados de busca e apreensão em várias cidades do estado, com foco na região Oeste potiguar.

Prefeito de Mossoró é alvo e nega irregularidades

Entre os alvos da operação está o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União Brasil), que teve um mandado de busca e apreensão cumprido em seu endereço. Em resposta, o gestor negou qualquer envolvimento em irregularidades, afirmando que sua gestão tem sido pautada pela transparência. No entanto, a investigação aponta para sua possível participação em um esquema de corrupção.

Prefeitura suspende contratos com empresas investigadas

Em resposta às investigações, a Prefeitura de Mossoró confirmou nesta terça-feira (3) que vai suspender os contratos com as empresas fornecedoras de medicamentos investigadas pela PF. A decisão segue uma recomendação do procurador geral do Município, Tales Pinheiro Belém, que argumentou ser "irrealista" esperar que as empresas cumpram suas obrigações com seus dirigentes sob restrições legais.

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As empresas envolvidas, DisMed e Drogaria Mais Saúde, haviam vencido lotes em um pregão realizado em 19 de janeiro, totalizando mais de R$ 570 mil. Juntas, elas tiveram bens e valores sequestrados superiores a R$ 13 milhões.

Como funcionava o esquema, segundo a PF

De acordo com transcrições de áudios incluídas na decisão judicial, o esquema envolvia o pagamento de propina a agentes públicos. Em um diálogo, empresários citam um contrato em Mossoró no valor de R$ 400 mil, onde apenas R$ 200 mil em produtos seriam entregues oficialmente. Dos R$ 200 mil restantes:

  • R$ 100 mil seriam de propina, com R$ 60 mil destinados ao prefeito Allyson Bezerra, o que representaria 15% do total do contrato;
  • R$ 70 mil seriam de comissão dos sócios;
  • R$ 30 mil ficariam com as empresas.

O desembargador federal Rogério Fialho Moreira destacou que os trechos revelam um esquema montado para recebimento de propina, com o prefeito e o vice-prefeito, Marcos Antônio Bezerra de Medeiros, no topo da estrutura. Medeiros, que assumiu o cargo em 2025, chegou a ocupar interinamente a secretaria do Fundo Municipal de Saúde de Mossoró em dezembro de 2022.

Volume de recursos e cidades envolvidas

A operação atingiu prefeituras de Mossoró, Serra do Mel, Tibau, Paraú, São Miguel e José da Penha. Dados do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RN) indicam que, entre 2021 e 2025, a Prefeitura de Mossoró pagou mais de R$ 13,5 milhões a uma das empresas investigadas, tornando-se a principal remetente de recursos. A decisão judicial ressaltou que o volume de dinheiro envolvido, somado à proximidade política entre Allyson Bezerra e um dos sócios da empresa, reforça as suspeitas de ilegalidade.

Reações das empresas e defesas

A DisMed, em nota, afirmou confiar que o esclarecimento técnico e documental demonstrará a "inexistência de qualquer conduta criminosa", destacando seu histórico de atividade lícita e fiscalizada. A defesa aguarda acesso integral aos autos para análise detalhada. O g1 não conseguiu contato com a Drogaria Mais Saúde para comentários.

A prefeitura de Mossoró, em comunicado oficial, afirmou que adotará as recomendações administrativas para cancelar o registro das empresas nas atas de preços e desclassificá-las de licitações em andamento, visando "resguardar a segurança jurídica da gestão pública e o interesse público".

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Contexto político e investigações em andamento

Os diálogos captados também mencionam planos para financiar uma possível campanha do vice-prefeito à prefeitura de Mossoró, com divisão de valores de propina. A operação Mederi continua em andamento, com a PF analisando provas e a Justiça avaliando os próximos passos. O caso expõe desafios na gestão de recursos públicos na saúde e reforça a necessidade de transparência em licitações municipais.