Lula afirma que disse a dono do Banco Master sobre investigação técnica do BC
Lula e encontro com dono do Banco Master sobre investigação

Presidente Lula detalha conversa com dono do Banco Master sobre investigação do BC

Em entrevista concedida ao UOL nesta quinta-feira, 5 de fevereiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez revelações sobre um encontro ocorrido no Palácio do Planalto. O chefe do Executivo afirmou ter dito ao empresário Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, que a instituição financeira seria alvo de uma investigação técnica conduzida pelo Banco Central, sem qualquer posicionamento político pró ou contra.

Contexto do encontro e participantes

A reunião entre Lula e Vorcaro aconteceu no dia 4 de dezembro de 2024, a pedido do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. Além deles, estiveram presentes na ocasião:

  • Augusto Lima, então CEO do Banco Master
  • Rui Costa, ministro da Casa Civil
  • Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia
  • Gabriel Galípolo, que assumiria a presidência do BC em janeiro de 2025

Questionado pelo UOL sobre o propósito do encontro, Lula explicou que recebeu representantes de diversos bancos durante seu mandato e que Vorcaro relatou estar sofrendo perseguições. A resposta do presidente, segundo sua própria narrativa, foi que não haveria interferência política e que eventuais irregularidades seriam analisadas tecnicamente pelo Banco Central.

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Divergência nas datas da investigação

O presidente não deixou claro a qual apuração específica se referia durante a entrevista. Contudo, caso estivesse mencionando a investigação sobre fraudes na venda de carteiras de crédito ao BRB, as datas apresentam uma inconsistência cronológica significativa.

Documentos oficiais que fundamentam a atuação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, elaborados pelo próprio Banco Central, indicam que essa investigação teve início apenas em março de 2025. Isso ocorreu aproximadamente três meses após a reunião no Planalto, levantando questões sobre a precisão da referência temporal feita por Lula.

Desdobramentos do caso e apurações técnicas

De acordo com o presidente, após a conversa com Vorcaro, ele chamou o ministro da Fazenda, o presidente do Banco Central e o procurador-geral da República para discutir o caso. Lula afirmou que via na situação uma oportunidade de investigar grandes esquemas de corrupção, caso fossem confirmadas irregularidades.

A assessoria da Presidência da República, quando procurada, esclareceu que a fala de Lula se referia exclusivamente ao encontro de dezembro de 2024 e à possibilidade de o BC apurar tecnicamente uma queixa apresentada por Vorcaro. Não se tratava, portanto, da investigação que veio a público posteriormente sobre as transações com o BRB.

Detalhes da investigação do Banco Central

Relatórios internos do Banco Central obtidos pela Folha de S. Paulo revelam que a autarquia identificou problemas nas transações de carteiras de crédito entre o Master e o BRB nos primeiros meses de 2025. Em 17 de março daquele ano, o BC enviou um ofício ao Master solicitando explicações sobre operações que resultaram em um fluxo financeiro de R$ 12,2 bilhões do banco público para a instituição privada.

Esse valor superava amplamente o limite de exposição permitido pelas regulamentações vigentes. Inicialmente, o Master informou que os créditos teriam sido originados por associações de servidores da Bahia. O Banco Central, porém, concluiu que essas entidades não possuíam capacidade financeira para movimentar tais valores e fez novos questionamentos.

Empresa no centro das suspeitas

Foi então que o Banco Master mencionou a Tirreno Consultoria Promotoria de Crédito e Participações, empresa que se tornou o epicentro das suspeitas. A Tirreno havia sido criada em novembro de 2024 com outra denominação social e passou por significativas mudanças societárias e de capital pouco antes e logo após o encontro no Planalto.

Parte dessas alterações só foi registrada oficialmente meses depois, já durante o curso da apuração conduzida pelo Banco Central. Essas inconsistências temporais e operacionais contribuíram para aprofundar as investigações.

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Encaminhamentos jurídicos e situação atual

Com base nas investigações realizadas, o Banco Central encaminhou uma representação criminal ao Ministério Público Federal em julho de 2025. A Polícia Federal, por sua vez, abriu um inquérito em agosto do mesmo ano para apurar as irregularidades identificadas.

Daniel Vorcaro chegou a ser preso em novembro de 2025, mas foi solto posteriormente por decisão do TRF-1. Atualmente, o caso tramita no Supremo Tribunal Federal, enquanto o Banco Master entrou em processo de liquidação extrajudicial em 18 de novembro de 2025.

Em provas coletadas pela Polícia Federal na primeira fase da Operação Compliance Zero, que teve como alvo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, há referências a lideranças partidárias e altas autoridades, indicando possíveis ramificações políticas do esquema investigado.