PF revela esquema de emendas, fraudes e compra de votos no Ceará envolvendo deputado e ex-prefeito
Esquema de emendas e fraudes no Ceará envolve deputado e ex-prefeito

PF desvenda rede criminosa de emendas e fraudes no Ceará com deputado e ex-prefeito

Um relatório sigiloso da Polícia Federal, encaminhado ao Supremo Tribunal Federal no final de janeiro, expôs um sofisticado esquema de corrupção que operava no estado do Ceará, envolvendo a negociação ilegal de emendas parlamentares, fraudes sistemáticas em licitações municipais e financiamento clandestino de campanhas eleitorais. A investigação aponta para uma organização criminosa estruturada que teria movimentado centenas de milhões de reais através de empresas de fachada.

Liderança dupla e operação coordenada

Segundo as investigações, o grupo era comandado pelo deputado federal Júnior Mano, do PSB, pré-candidato ao Senado, e pelo ex-prefeito de Choró, Bebeto Queiroz, também do PSB, que encontra-se foragido há mais de um ano. A dupla teria estabelecido um mecanismo de troca de favores políticos e desvios de recursos públicos em escala impressionante.

Bebeto Queiroz atuava como intermediário principal, direcionando as emendas parlamentares do deputado Júnior Mano para prefeituras alinhadas ao grupo. Por este serviço, cobrava uma "taxa" que variava entre 12% e 15% do valor total das emendas, conforme detalhado no relatório da PF obtido pelo g1.

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Mecanismo de retroalimentação criminosa

O esquema funcionava em um ciclo vicioso: as empresas vinculadas ao grupo recebiam contratos das prefeituras que haviam sido beneficiadas pelas emendas parlamentares. Os recursos desviados desses contratos eram então utilizados para financiar campanhas eleitorais de aliados, incluindo a compra direta de votos por valores entre R$ 200 e R$ 500.

"Uma vez eleitos os candidatos apoiados, as empresas do esquema garantiam novos contratos com as prefeituras dos aliados, configurando um sistema de perpetuação do poder", descreve o documento da Polícia Federal.

Números impressionantes e empresas envolvidas

De acordo com análise da Controladoria-Geral da União, nove das empresas investigadas receberam aproximadamente R$ 455,5 milhões de prefeituras cearenses entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025. A empresa MK Serviços, sozinha, movimentou mais de R$ 318 milhões nesse período.

O relatório cita pelo menos dez empresas suspeitas de participação no esquema, incluindo:

  • PGL Serviços, Locações e Construções
  • MK Serviços, Construções e Transporte Escolar
  • Cariri Edificações, Serviços e Conduções EIRELI
  • Dinâmica Transporte Escolar e Serviços de Locação
  • BR Construções de Edifícios Transporte e Serviços

Alcance territorial e envolvidos

Os investigadores identificaram uma lista com 71 prefeituras cearenses que estariam vinculadas ao deputado Júnior Mano. Em aproximadamente 50 municípios, os candidatos apoiados pelo grupo teriam sido eleitos, embora não esteja claro quantos receberam recursos ilegais diretamente.

Além dos dois líderes, a PF menciona outras dez pessoas como suspeitas de envolvimento, incluindo:

  1. Cleidiane Queiroz, irmã de Bebeto, apontada como gestora operacional
  2. Maurício Gomes Coelho, sócio-proprietário da MK Serviços
  3. Adriano Almeida Bezerra, assessor parlamentar de Júnior Mano
  4. Iago Viana Nascimento, controlador da empresa Colinas Construções

Crimes apontados e defesas

A Polícia Federal lista uma série de crimes atribuídos aos envolvidos, incluindo organização criminosa com fins eleitorais, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica eleitoral e captação ilícita de sufrágio.

A assessoria jurídica do deputado Júnior Mano emitiu nota afirmando que a investigação "nada encontrou de relevante contra o deputado" e lamentou o "vazamento seletivo de informações sigilosas" em momento político sensível. A defesa de Bebeto Queiroz limitou-se a declarar que se manifestará exclusivamente nos autos do processo.

Histórico de operações

Em julho de 2025, Júnior Mano foi alvo de operação da PF que investigava fraudes em licitações no Ceará. Bebeto Queiroz foi preso em novembro de 2024, antes de assumir como prefeito de Choró, mas foi solto após dez dias e tornou-se foragido, com mandado de prisão ainda não cumprido.

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O relatório da PF baseia-se em operações policiais, análise de movimentações financeiras e interceptações de comunicações dos suspeitos, revelando um esquema que se aproveitava da máquina pública para enriquecimento ilícito e manipulação do processo eleitoral no estado.