Empresa com vínculo familiar recebeu R$ 11,4 milhões em contratos da Educação do Rio
As obras milionárias da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro, atualmente sob investigação do Ministério Público do Estado (MPRJ) e do Tribunal de Contas do Estado (TCE), envolvem uma empresa que mantém conexões familiares com altos funcionários da pasta. A Atec, empresa de construção civil, recebeu ao menos R$ 11,4 milhões da secretaria para realizar reformas em escolas estaduais, sendo que parte dessas contratações ocorreu sem processos licitatórios regulares.
Vínculos familiares na contratação pública
Documentos oficiais revelam que Guilherme Rangel Abreu, conhecido como Guilherme Bocão, assinou como representante legal da Atec em contrato para fornecimento de cestas básicas à Prefeitura de Niterói. O empresário é filho de Joilza Rangel, subsecretária estadual de Educação do Rio. Apesar de não ocupar cargo formal no Executivo estadual, servidores e ex-servidores da secretaria relataram à reportagem que Guilherme Bocão exerceria influência significativa nas decisões da pasta.
Outro nome mencionado nos relatos é Yurie Lopes Fonseca Ormonde André, genro da então secretária de Educação Roberta Barreto, que também teria participação informal nas atividades da secretaria, conforme depoimentos de ex-colegas que preferiram manter o anonimato por temer retaliações.
Empresa atua em múltiplos setores e nega irregularidades
A Atec funciona no bairro Barreto, em Niterói, e atua em diversas áreas, desde serviços de fotocópias até construção civil. Alberes Batista Junior, proprietário da empresa, negou veementemente que Guilherme Bocão seja sócio oculto ou representante da Atec, contradizendo documentos oficiais da Prefeitura de Niterói que mostram a assinatura de Guilherme como representante legal.
"Minha empresa é há 20 anos minha. Não tenho representante, não tenho nada. Sou eu que executo as obras, sou eu que faço tudo na empresa. Os contratos da minha empresa quem assina sou eu", afirmou Batista Junior em entrevista. O empresário também questionou a lógica de ter engenheiros e pedreiros atuando em seu escritório, reforçando sua versão de que administra pessoalmente todos os aspectos do negócio.
Investigações apontam superfaturamento em obras escolares
As reformas realizadas nas escolas estaduais do Rio são alvo de investigações detalhadas do TCE e do Ministério Público, com fortes indícios de superfaturamento. Denúncias apresentadas pelo deputado Flávio Serafini (Psol) revelam que pedidos de pequenos reparos teriam sido transformados em grandes obras milionárias pela secretaria.
Os pagamentos foram efetuados através do sistema descentralizado da Secretaria de Educação (Seeduc), que recebeu impressionantes R$ 1 bilhão nos últimos dois anos. Um caso específico envolve a Atec, contratada para obras no Colégio Estadual José Rascão, em São Pedro da Aldeia, na Região dos Lagos.
A Coordenadoria de Engenharia da secretaria solicitou reforma integral do telhado da escola, embora a unidade de ensino não tivesse feito esse pedido específico. O serviço custou mais de R$ 1,5 milhão aos cofres públicos, e relatório de vistoria posterior apontou que parte significativa dos serviços não foi executada conforme as especificações técnicas estabelecidas no contrato.
Mudanças na liderança e respostas oficiais
Na tarde de segunda-feira (23), a reportagem solicitou respostas à Secretaria Estadual de Educação sobre as acusações. Na terça-feira (24), foi publicada no Diário Oficial a exoneração da secretária Roberta Barreto, que afirmou deixar o cargo para se dedicar ao processo eleitoral, antecipando em dois meses o prazo exigido pela legislação eleitoral.
Em seu lugar, assume Luciana Martins Calaça, que anteriormente presidia a Fundação Leão XIII. Sobre a ligação do filho da subsecretária com uma das empresas contratadas, a Secretaria Estadual de Educação emitiu nota informando que decisões administrativas são tomadas exclusivamente por agentes públicos formalmente designados.
A pasta destacou ainda que, no sistema de pagamento descentralizado, as propostas são apresentadas diretamente às unidades escolares, e que todas as empresas contratadas precisam cumprir rigorosamente as exigências legais estabelecidas. A secretaria confirmou que a Atec foi notificada oficialmente pelos problemas identificados na obra realizada em São Pedro da Aldeia.
A reportagem tentou contato com Guilherme Rangel Abreu e com Rodrigo Bacellar, presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e apontado como responsável pela indicação da ex-secretária Roberta Barreto, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.