A Polícia Federal divulgou detalhes de uma investigação que expõe a estrutura da facção criminosa Tropa do Amigão, braço do Comando Vermelho na Paraíba. Após a quebra de sigilo telemático de Flávio de Lima Monteiro, o Fatoka, os agentes tiveram acesso a conversas, fotos e vídeos armazenados em sua conta do iCloud. As informações mostram como o criminoso, de dentro de uma comunidade no Rio de Janeiro, coordenava o tráfico de drogas, ordenava execuções e mantinha um esquema de infiltração na administração pública de Cabedelo.
Conteúdo do iCloud revela ordens e negócios
Os dados extraídos da nuvem, por meio de uma conta criada com nome falso, incluem diálogos no WhatsApp em que Fatoka, usando o nome de usuário “Salmo 91”, discute a chegada de 100 quilos de maconha para venda em Cabedelo. Em uma conversa com um comparsa identificado como “França”, ele planeja a logística de embalar e distribuir a droga. Além disso, a PF identificou mensagens sobre a venda de cocaína, skank, haxixe e crack.
Em outro trecho, Fatoka autoriza a execução de um rival ligado à facção Nova Okaida, que estaria vendendo drogas no bairro do Bessa, em João Pessoa. A autorização foi dada após diálogo com “Mago David”, no qual Fatoka diz: “põe aço nele”. A PF ressalta que ele ainda recomendou cautela depois da ordem.
Esquema de desvio de verbas públicas
Segundo a investigação, a facção atuava em conluio com agentes políticos para desviar recursos públicos. A empresa terceirizada Lemon era contratada pela prefeitura, supostamente por meio de licitações fraudadas, para empregar pessoas ligadas ao crime organizado. Esses funcionários recebiam salários inflados, e parte do dinheiro retornava aos líderes da facção e a políticos como propina.
Ariadna Thalia, apontada como chefe do núcleo de lavagem de dinheiro, afirmou em depoimento que o ex-prefeito Vitor Hugo atuou para manter o esquema, que teria desviado mais de R$ 270 milhões. Ela disse que, após uma operação da PF em dezembro de 2024, o então prefeito André Coutinho rompeu o acordo e demitiu os funcionários indicados pela facção. Fatoka então teria cobrado Vitor Hugo, que prometeu que “uma pessoa dele” assumiria a prefeitura para retomar o esquema.
Quando Edvaldo Neto assumiu interinamente, em dezembro de 2025, as contratações foram retomadas parcialmente. Em troca, a facção garantia que opositores políticos não fizessem campanha em territórios dominados por ela, como ocorreu com Wallber Virgolino nas eleições suplementares de 2025.
Defesas dos citados
A defesa de Vitor Hugo repudiou qualquer vinculação com organizações criminosas, afirmando que ele não conhece Ariadna nem Fatoka. Camila Holanda, ex-vice-prefeita, disse que causou surpresa a tentativa de envolvê-la e que já apresentou provas ao TRE-PB. Edvaldo Neto negou qualquer acordo com facções e ressaltou que a única referência a ele no depoimento decorre de perguntas do interrogador. A empresa Lemon afirmou que Ariadna foi funcionária por sete meses e foi desligada, classificando como “não razoável” a ideia de que uma chefe de facção trabalharia como auxiliar de serviços gerais. André Coutinho disse não conhecer Ariadna e que nunca compactuou com o crime organizado.
Modelo de desvio e operação
O esquema, segundo a Justiça, funcionava com a prefeitura contratando serviços terceirizados por licitações direcionadas. Empresas concorrentes eram desclassificadas deliberadamente, mesmo com propostas melhores. Os contratos permitiam a contratação de pessoas indicadas pela facção, criando uma “folha de pagamento paralela”. O dinheiro desviado era lavado por meio de salários inflados, pagamentos em espécie e contas de terceiros.
Na operação, foram cumpridos 21 mandados de busca e apreensão, inclusive no apartamento do prefeito Edvaldo Neto. A Justiça também proibiu o acesso à prefeitura de sete pessoas, incluindo Edvaldo Neto, Vitor Hugo e outros investigados.



