Deolane Bezerra alega exercício profissional em depósito de R$ 24 mil
Deolane alega advocacia em depósito de R$ 24 mil

A influenciadora digital e advogada Deolane Bezerra declarou, durante audiência de custódia realizada na quinta-feira (21), que os R$ 24 mil mencionados pela investigação como suspeitos de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC) foram recebidos como honorários advocatícios. Ela foi presa na Operação Vérnix, conduzida pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e pela Polícia Civil.

Deolane afirmou que o valor corresponde ao exercício da profissão e não possui relação com atividades criminosas. Segundo ela, os fatos investigados ocorreram entre 2019 e 2020, período em que atuava como advogada do cliente mencionado pela polícia. A influenciadora destacou que o próprio relatório policial reconheceria seu acompanhamento como advogada ao investigado. “Eu fui presa por estar advogando por uma quantia de R$ 24 mil depositada em minha conta por um cliente que consta no próprio relatório da polícia o acompanhamento meu como advogada ao cliente”, disse. “Eu fui presa no exercício da profissão.”

A investigação aponta que o valor foi depositado de forma fracionada em 12 operações de R$ 2 mil no mesmo dia, sem identificação do depositante. A polícia considera esse método uma estratégia típica de lavagem de capitais, usada para ocultar a origem ilícita dos recursos e evitar alertas dos órgãos de controle financeiro. Os investigadores sustentam que Deolane teria papel central na movimentação financeira do esquema, com recursos atribuídos à facção sendo depositados em contas ligadas a ela, misturados a outras atividades e posteriormente devolvidos ao grupo criminoso.

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A Justiça determinou o bloqueio de R$ 27 milhões atribuídos à influenciadora e decretou sua prisão preventiva, sob o argumento de risco de fuga. Durante a audiência, a defesa de Deolane solicitou que ela responda ao processo em prisão domiciliar. Os advogados alegaram que ela é mãe de uma criança de 9 anos e citaram entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) que permite substituir prisão preventiva por domiciliar para mães de crianças pequenas em casos sem violência ou grave ameaça. “A prisão hoje é ilegal em razão de que ela é mãe de uma criança de 9 anos”, afirmou uma das advogadas.

Na quinta-feira, ao ser questionada pela TV Globo se estava lavando dinheiro para Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, chefe do PCC, Deolane respondeu que estava “trabalhando”. Ao sair da sede da Polícia Civil, no Centro de São Paulo, ela também afirmou que “a Justiça vai ser feita”. Ela foi presa preventivamente em um condomínio de luxo em Alphaville, Barueri, na Grande São Paulo. A advogada foi classificada como integrante do PCC, atuando como “caixa” do crime organizado. Inicialmente levada para a Penitenciária feminina de Santana, na Zona Norte da capital, foi transferida na manhã desta sexta-feira (22) para a Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, no interior do estado.

Deolane passou as últimas semanas em Roma, na Itália. Seu nome chegou a ser incluído na lista da Difusão Vermelha da Interpol, mas ela retornou ao Brasil na quarta-feira (20). Em nota, a defesa ressaltou a inocência da advogada e afirmou que “os fatos serão devidamente esclarecidos por esta”.

Operação Vérnix

Foram cumpridos seis mandados de prisão preventiva, além de ordens de busca e apreensão. Os alvos incluem Deolane Bezerra; Marcola; Alejandro Camacho, irmão de Marcola; Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha; Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, sobrinho; e Everton de Souza, o “Player”, operador financeiro do grupo. Marcola e Alejandro estão presos na Penitenciária Federal de Brasília e serão comunicados sobre a nova ordem de prisão. Até a última atualização, os sobrinhos de Marcola estavam foragidos e os demais alvos haviam sido presos. Também foi determinado o bloqueio de 39 veículos avaliados em mais de R$ 8 milhões e de R$ 357,5 milhões em bloqueios financeiros. O influenciador digital Giliard Vidal dos Santos, considerado filho de criação por Deolane, e um contador também foram alvos de busca e apreensão.

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Sobre a investigação

A investigação começou em 2019 com a apreensão de bilhetes e manuscritos com dois presos na Penitenciária II de Presidente Venceslau. O material deu origem a três inquéritos policiais sucessivos. O primeiro focou nos dois presos, identificando ordens internas da facção, contatos com integrantes de alta hierarquia e menções a ações violentas contra servidores públicos. Os indiciados foram condenados e inseridos no sistema penitenciário federal.

Entre os trechos, chamou atenção a citação a uma “mulher da transportadora”, que teria levantado endereços de agentes públicos para subsidiar ataques. Isso deu origem ao segundo inquérito, que identificou a mulher como Elidiane Saldanha Lopes Lemos, então sócia da transportadora Lopes Lemos. Ela foi condenada, mas está foragida. As diligências conduziram a uma empresa de fachada usada para lavagem de dinheiro, resultando na Operação Lado a Lado, em 2021, que revelou movimentações financeiras incompatíveis e a transportadora como braço financeiro da facção. A apreensão do celular de Ciro Cesar Lemos, operador central, trouxe mais informações sobre a dinâmica de lavagem, abrindo nova frente de investigação sobre repasses financeiros e conexões com uma influenciadora digital.

Segundo a investigação, Ciro Cesar Lemos comprava caminhões, realizava pagamentos, movimentava recursos da cúpula do PCC, executava ordens de Marcola e Alejandro e administrava patrimônio em nome deles. Imagens dos depósitos que favoreciam contas de Deolane Bezerra Santos e Everton de Souza foram localizadas no celular apreendido na casa de Ciro, que está foragido com a esposa. Os valores da empresa Lopes Lemos Transportes eram destinados a Marcola, Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior e seus familiares, usando contas de Everton de Souza e Deolane Bezerra. A apuração constatou que a influenciadora possuía estreitos vínculos pessoais e de negócios com um dos gestores fantasmas da transportadora.

A Operação Vérnix, terceira etapa, visa esmiuçar um esquema mais amplo de lavagem de dinheiro, com ramificações empresariais, patrimoniais e financeiras. Os levantamentos apontaram uso de pessoas jurídicas, recebimentos de origem não esclarecida, circulação de valores milionários e aquisição de bens de alto padrão por parte de Deolane Bezerra. Para os investigadores, a projeção pública, a atividade empresarial formal e a movimentação patrimonial eram usadas como camadas de aparente legalidade para ocultar a origem ilícita dos recursos.