Operação 'Grau Zero' desarticula esquema criminoso que unia manobras radicais e jogos de azar
A Polícia Civil e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, estão investigando uma quadrilha suspeita de utilizar influenciadores digitais para divulgar cassinos online por meio de vídeos perigosos de manobras radicais com motocicletas. A operação, batizada de "Grau Zero", revela um esquema sofisticado que começava com infrações de trânsito e evoluía para promoção de jogos de azar e lavagem de dinheiro.
Do trânsito ao crime organizado: a engrenagem do esquema
Conforme explicou o delegado Rodrygo Ayres, da Divisão Especializada de Investigações Criminais (DEIC) de Sorocaba, o grupo operava uma sequência de crimes a partir do engajamento nas redes sociais. "Eles praticavam crimes de trânsito, manobras extremamente perigosas, rachas nas ruas da cidade de Sorocaba, empinavam as motocicletas e adulteravam as placas", detalhou Ayres em entrevista à TV TEM.
Após gravar essas ações criminosas, os influenciadores inseriam os vídeos nas plataformas digitais, onde alcançavam milhões de visualizações – um único conteúdo somou mais de 10 milhões – e conquistavam um grande número de seguidores. Com essa audiência consolidada, partiam para outros delitos, como a organização de rifas ilegais, premiações e apostas online.
Da popularidade ao lucro ilícito: a lavagem de dinheiro
Os investigados utilizavam sites e perfis alternativos nas redes sociais para divulgar as cotas das rifas, que prometiam prêmios valiosos, como uma motocicleta avaliada em R$ 90 mil. "Através destas rifas eles obtiveram diversos lucros, e aí eles vinham para a prática de mais um crime, que é a lavagem de dinheiro. Eles procuravam dar uma aparência de origem lícita para esses ganhos", acrescentou o delegado.
O grupo mantinha múltiplas contas nas redes como perfis reservas, uma estratégia para contornar possíveis denúncias e bloqueios das contas principais. Essa camuflagem digital facilitava a continuidade das atividades criminosas mesmo sob vigilância.
Os detalhes da operação e os investigados
A fase "Grau Zero" da investigação "Digital Trash" cumpriu sete mandados de busca e apreensão em cinco endereços de Sorocaba, incluindo dois condomínios de luxo nos bairros Wanel Ville, Nova Esperança, Vila Helena e no Distrito Industrial. Entre os bens apreendidos estão carros, motocicletas, motos aquáticas e uma quantia em dinheiro ainda não contabilizada.
Alex Mariano Augusto, de 25 anos, foi preso em flagrante por porte ilegal de arma de fogo com numeração raspada. Seu irmão, Bruno Mariano Augusto, de 29 anos, também é investigado, assim como:
- Lucas Marcel Dersibia, 36 anos
- Gustavo Silva Pereira, 20 anos
- Márcio dos Santos Júnior, 36 anos, conhecido como "Júnior do Grau" e apontado como líder da organização criminosa
Por determinação judicial, 20 contas ligadas aos investigados serão bloqueadas em cinco plataformas digitais diferentes. Além disso, os envolvidos tiveram as Carteiras Nacionais de Habilitação (CNHs) cassadas, estão proibidos de dirigir, usar redes sociais e deixar a cidade.
Contexto e antecedentes da investigação
A operação "Grau Zero" corresponde à segunda fase da investigação "Digital Trash". Em maio de 2024, o principal investigado já havia sido alvo de ações policiais, quando teve um carro de luxo da marca Porsche, avaliado em R$ 750 mil, apreendido. Além dos delitos de trânsito, os envolvidos podem responder por crimes de lavagem de dinheiro, associação criminosa e adulteração de sinal identificador de veículo.
O caso expõe uma faceta preocupante do crime digital, onde a popularidade nas redes sociais é instrumentalizada para fins ilícitos, colocando em risco não apenas a segurança viária, mas também a integridade financeira de milhares de seguidores.



