Uma delegada que havia acabado de tomar posse foi presa na manhã desta sexta-feira (16) em São Paulo, suspeita de manter ligações com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). A operação foi conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, em conjunto com a Corregedoria-Geral da Polícia Civil.
Relacionamento com faccionado e atuação irregular
Layla Lima Ayub, de 36 anos, foi detida em uma pensão localizada no bairro do Butantã, zona oeste da capital paulista, próximo à Academia da Polícia Civil (Acadepol). Ela estava acompanhada de Jardel Neto Pereira da Cruz, conhecido como "Dedel", 28, que também era alvo de um mandado de prisão. Os dois viviam juntos no local há pouco mais de um mês.
A investigação apurou que Ayub mantém um relacionamento amoroso com Dedel, que já se declarou membro do PCC, conforme informações da Secretaria de Administração Penitenciária do Pará. Eles teriam se conhecido no ano passado em uma penitenciária em Marabá (PA), onde Dedel estava preso. Antes de passar no concurso para delegada, Ayub atuava como advogada naquela cidade, considerada um reduto da facção no estado do Pará.
O que chamou a atenção dos investigadores foi que, mesmo após tomar posse como delegada em dezembro de 2025, Ayub atuou de forma irregular como advogada. Ela participou de uma audiência de custódia virtual no dia 28 de dezembro, defendendo quatro presos apontados como simpatizantes do Comando Vermelho em Marabá. Embora ela tivesse pedido o cancelamento de sua carteira na OAB, o registro na subseção de Marabá ainda estava ativo.
Cerimônia de posse e "ousadia absurda"
Layla Ayub foi empossada como delegada em uma cerimônia realizada no Palácio dos Bandeirantes em 19 de dezembro de 2025, com a presença do governador Tarcísio de Freitas e do secretário de Segurança, Osvaldo Nico Gonçalves. Na ocasião, foram nomeados 524 novos delegados.
Dedel, que estava em liberdade condicional desde novembro, compareceu à cerimônia. O fato foi classificado pelo juiz Paulo Fernando Deroma de Mello, que ordenou a prisão da delegada, como uma "ousadia absurda e um total deboche das autoridades públicas". Em sua decisão, assinada na quinta-feira (15), o magistrado afirmou que, se comprovado que o PCC recrutou a investigada para passar no concurso, é um sinal alarmante da infiltração do crime organizado no Estado.
"Pode-se afirmar, sem qualquer dúvida, se já nos tornamos um narcoestado, estamos a poucos passos para isso", escreveu o juiz.
Viagem conjunta e investigação em andamento
Os investigadores apuraram que Ayub e Dedel viajaram juntos de ônibus de Marabá para São Paulo no dia 4 de dezembro. A viagem violou uma das condições da liberdade condicional de Dedel, que era permanecer na comarca de Marabá. No dia 28 de dezembro, após a posse, Ayub ainda ingressou com uma ação no Tribunal de Justiça de São Paulo como defensora de Dedel, pedindo a remoção de reportagens sobre o processo dele nos resultados de busca do Google.
Registros de inteligência penitenciária do Pará indicam que, como advogada, Ayub fazia visitas a vários outros presos do PCC que não eram seus clientes, um indício, para o Ministério Público, de que ela poderia trabalhar em prol da facção. A operação também cumpriu sete mandados de busca e apreensão em São Paulo e Marabá.
As autoridades investigam ainda a possibilidade de o casal estar em tratativas para se tornar sócio de uma padaria em Itaquera, na zona leste de São Paulo, o que poderia configurar uma operação de lavagem de dinheiro.
Reações e monitoramento de candidatos
O secretário estadual de Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, afirmou que a prisão mostra que o governo "não hesita em cortar na própria carne". Ele revelou que "vários outros candidatos" de concursos para as forças de segurança estão sendo monitorados, mas ressaltou que Ayub não tinha antecedentes criminais que a desqualificassem no processo seletivo.
O Procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio Oliveira e Costa, destacou em nota que, "além da economia formal, o crime organizado tem também se infiltrado em carreiras públicas e estruturas de Estado. Mas em São Paulo, graças aos setores de inteligência, isso tem sido coibido".
Layla Ayub, que já atuou como policial militar no Espírito Santo e como consultora jurídica, havia sido nomeada em dezembro e ainda fazia o curso de formação de seis meses para delegados. Ela foi presa e levada para a Corregedoria da Polícia Civil. A reportagem tentou contato com a defesa da delegada.



