Polícia desmantela rede nacional do golpe do bilhete premiado com origem em Passo Fundo
Em uma operação de grande alcance, a polícia identificou sete grupos criminosos especializados no golpe do bilhete premiado, todos com origem em Passo Fundo, na Região Norte do Rio Grande do Sul. A descoberta ocorreu em menos de uma semana, revelando uma rede organizada que se espalha por todo o país para aplicar a fraude centenária. Para os agentes investigativos, a cidade gaúcha é claramente o ponto de partida desta rede criminosa que causa prejuízos financeiros e emocionais significativos às vítimas.
Operações policiais prendem suspeitos em seis estados brasileiros
Entre o fim de janeiro e o início de fevereiro, as forças policiais executaram mandados de prisão em múltiplos estados, resultando na captura de integrantes dos sete grupos. As operações ocorreram no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás, Alagoas, Espírito Santo e Paraíba. Os alvos foram localizados em cidades como Passo Fundo, Alvorada e Sarandi, no RS; Itapema e Balneário Camboriú, em Santa Catarina; Goiânia, em Goiás; João Pessoa, na Paraíba; Vitória, no Espírito Santo; e Maceió, em Alagoas.
O delegado Adroaldo Schenkel destacou que muitos criminosos especializados neste golpe acabam deixando Passo Fundo para atuar em outras regiões. Ele enfatizou que, apesar de ser um crime antigo, o golpe do bilhete premiado continua se reinventando, explorando novas abordagens para enganar as vítimas.
Passo Fundo é apontada como a capital histórica do golpe
Com a prisão de tantos suspeitos originários da cidade, Passo Fundo passou a ser chamada pelos investigadores de capital do golpe do bilhete. O delegado Schenkel afirmou que a prática tem um longo histórico na região, remontando a muitas décadas. Passo Fundo tem um longo histórico de ação no golpe do bilhete premiado, já vem de muitas décadas, declarou o delegado, sublinhando a persistência deste tipo de crime na área.
A pesquisadora Fabiana Beltrami corroborou essa informação, explicando que há registros do golpe em Passo Fundo desde a década de 1930, com repetições nas décadas seguintes. Inicialmente, as fraudes eram aplicadas por moradores locais contra outros residentes da própria cidade, demonstrando como a prática se enraizou na comunidade ao longo do tempo.
Relatos das vítimas revelam a crueldade do golpe
As vítimas descrevem abordagens que exploram a boa vontade e a solidariedade humana. Uma delas relatou ter sido enganada por um homem idoso que afirmava ter um bilhete supostamente premiado e pedia ajuda porque não sabia onde ficava a lotérica. Outra vítima lembrou que dois homens se apresentaram como donos de um bilhete premiado, com um deles dizendo: Me ajuda que eu dou a metade do prêmio.
O comparsa, fingindo ser um desconhecido que passava pelo local, confirmava a história, garantindo que o bilhete era verdadeiro. Eu queria ajudar... ele disse que não era de Porto Alegre, que não sabia que banco era, relatou a vítima, ilustrando como os golpistas criam uma narrativa convincente para ludibriar as pessoas.
Mecanismo do golpe e perfil das vítimas
O golpe segue um roteiro tradicional bem estabelecido:
- Um criminoso aborda a vítima em local público, alegando ter um bilhete premiado.
- Um comparsa aparece e confirma a história, muitas vezes por telefone, fingindo ser funcionário de banco.
- Os golpistas criam proximidade emocional e convencem a vítima a trocar dinheiro pelo bilhete.
- Em poucos minutos, fogem do local.
- O prejuízo só é percebido pela vítima após a fuga dos criminosos.
A psicóloga Beatriz Becker analisou que os golpistas exploram habilmente as emoções humanas, criando uma falsa relação de confiança. Eles chegam gentis, solícitos. O público, hoje, são os idosos. O bilhete é um objeto físico, o cérebro acredita mais. Há também a solidão e o isolamento social, afirmou a especialista, destacando como os criminosos se aproveitam da vulnerabilidade emocional e social, especialmente dos mais velhos.
Consequências legais e medidas de proteção
Pelo Código Penal brasileiro, o estelionato, que inclui o golpe do bilhete premiado, prevê pena de um a cinco anos de prisão. As autoridades recomendam que a população fique atenta a abordagens suspeitas e desconfie de promessas de ganhos fáceis. É crucial verificar a autenticidade de qualquer bilhete em estabelecimentos oficiais e nunca fornecer dinheiro ou informações pessoais a desconhecidos em troca de supostos prêmios.
A polícia continua investigando a extensão completa da rede criminosa e busca identificar mais envolvidos, visando coibir esta prática fraudulenta que atravessa décadas e continua a causar danos em todo o território nacional.