Tenente-coronel da PM é preso por feminicídio após morte de esposa policial em São Paulo
A morte da policial militar Gisele Alves Santana, encontrada com um tiro na cabeça no apartamento onde morava no Brás, região central de São Paulo, no dia 18 de fevereiro, transformou-se de um registro inicial de suicídio para uma investigação por feminicídio que culminou na prisão do marido, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, um mês depois. O caso reúne laudos periciais contraditórios, mensagens reveladoras e decisões judiciais que desmontaram a versão apresentada pelo oficial.
Mensagens revelam agressões e ameaças antes da morte
Mensagens extraídas pela Corregedoria da Polícia Militar do celular do tenente-coronel apontam que Gisele teria sido agredida fisicamente por ele treze dias antes de morrer. Em troca de mensagens do dia 6 de fevereiro, a policial afirmou que o marido estava "sempre caçando um motivo para brigar" e que teria agredido e gritado com ela no dia anterior. "Você enfiou a mão na minha cara ontem. Gritou comigo hoje", escreveu Gisele.
Dias antes de ser encontrada morta, a soldado também enviou mensagens a uma amiga se queixando dos ciúmes do marido: "Tem que controlar os ciúmes dele. Qualquer hora me mata. Fica cego". Segundo a mãe de Gisele, cinco dias antes da morte, a PM telefonou dizendo que não suportava mais a pressão e queria se separar.
Da versão de suicídio à investigação por feminicídio
Na manhã de 18 de fevereiro, Gisele foi encontrada morta no apartamento. O boletim de ocorrência inicial, baseado no depoimento do marido, registrou o caso como suicídio. O tenente-coronel afirmou que estava no banho quando ouviu o disparo e encontrou a esposa caída com uma arma na mão.
Entretanto, em 20 de fevereiro, a polícia passou a investigar o caso como morte suspeita. Um Inquérito Policial Militar obtido pela TV Globo revelou denúncias anônimas sobre uma relação conturbada, marcada por ameaças, perseguição e instabilidade emocional por parte do oficial.
Laudos periciais contradizem versão do tenente-coronel
Laudos do Instituto de Criminalística e do Instituto Médico Legal trouxeram informações cruciais. O laudo inicial revelou um disparo de arma de fogo encostado no lado direito do crânio. Após exumação do corpo, peritos identificaram marcas na região do pescoço e no corpo da policial, indicando que ela desmaiou antes de ser baleada e não apresentou defesa.
Um socorrista que atendeu a ocorrência desconfiou da posição da arma na mão de Gisele e fotografou a cena. Em depoimento, ele afirmou que a arma estava bem encaixada na mão de um modo que nunca tinha visto em casos de suicídio.
Inconsistências na versão do banho e comportamento do marido
Depoimentos de socorristas levantaram questionamentos sobre a versão do tenente-coronel. Embora ele afirmasse estar no banho no momento do disparo, os primeiros bombeiros que chegaram ao local relataram encontrá-lo seco, sem marcas de água no chão. Um sargento do Corpo de Bombeiros com quinze anos de experiência afirmou que não havia pegadas molhadas indicando que ele teria saído durante o banho.
Outro ponto que chamou a atenção foi o estado emocional do marido. O sargento afirmou não ter visto desespero ou choro por parte do tenente-coronel, que falava calmamente ao telefone e questionava o atendimento prestado. Os socorristas também observaram que ele não apresentava marcas de sangue, indicando que não tentou prestar primeiros socorros.
Mensagens e áudios reforçam linha investigativa
O advogado da família apresentou um áudio em que Gisele falava sobre planejar sair do apartamento e buscar uma casa próxima dos pais. Mensagens analisadas pela polícia reforçaram o cenário de controle, ameaças e exigências no relacionamento, incluindo declarações de que, por ser o provedor, a esposa deveria "retribuir".
Prisão e manutenção da custódia
Em 18 de março, a Justiça Militar decretou a prisão do tenente-coronel, que foi preso em São José dos Campos e levado ao Presídio Militar Romão Gomes. Na audiência de custódia, a prisão foi mantida. O Superior Tribunal de Justiça negou habeas corpus para liberdade do oficial em 20 de março.
O caso continua sendo investigado, com discussões sobre se será julgado pela Justiça comum, em júri popular, ou pela Justiça Militar. Familiares de Gisele comemoraram a prisão, enquanto a defesa do tenente-coronel sustenta a versão de suicídio e aguarda o desenrolar das investigações.



