Polícia prende suspeito após quase duas décadas do assassinato de criança
A polícia do Paraná realizou a prisão preventiva de Martônio Alves Batista, de 55 anos, suspeito de ser o autor do assassinato de Giovanna dos Reis Costa, ocorrido há quase 20 anos na cidade de Quatro Barras, região metropolitana de Curitiba. O caso, que permaneceu sem solução por quase duas décadas, foi reaberto após novas evidências e denúncias de abuso sexual contra o suspeito.
O crime que chocou o Paraná em 2006
Giovanna tinha apenas nove anos quando desapareceu no dia 10 de abril de 2006, enquanto vendia rifas escolares perto de sua residência. Dois dias depois, em 12 de abril, seu corpo foi encontrado em um terreno baldio, envolto em sacos plásticos e amarrado com fios elétricos. A perícia constatou que a morte ocorreu por asfixia mecânica e identificou sinais extremos de violência sexual.
As roupas da menina foram localizadas em outro terreno desocupado, aproximadamente 50 metros distante da casa da família. Na época, a delegada responsável pelo caso, Margareth Alferes de Oliveira Motta, afirmou que tudo indicava que o crime havia ocorrido em uma das residências das imediações.
Investigções iniciais e suspeitos inocentados
Durante as investigações iniciais em 2006, três pessoas foram consideradas suspeitas: dois homens e uma mulher. A teoria que ganhou força na época sugeria que a criança havia sido morta em um ritual, especialmente porque as roupas de Giovanna foram encontradas em frente à casa de Martônio, que também era vizinha a uma casa de tarô habitada por três pessoas ciganas.
Os três adultos foram a julgamento em 2012 e foram absolvidos a pedido tanto do Ministério Público do Paraná quanto da defesa, por falta de elementos que os ligassem ao homicídio. Eles haviam sido acusados de atrair Giovanna para dentro da casa para cometer o crime em um suposto ritual que envolveria extração de sangue.
Martônio como suspeito desde o início
Martônio, que era vizinho da vítima, chegou a ser considerado suspeito durante as primeiras investigações em 2006. Policiais foram à sua casa no dia do desaparecimento, onde encontraram um colchão com mancha de urina. Quando retornaram, o colchão havia desaparecido e a casa havia sido lavada com água sanitária.
No quintal da residência, os policiais encontraram um fio de energia semelhante ao utilizado para amarrar o corpo da criança. Apesar dessas evidências, Martônio prestou depoimento e foi liberado na época, enquanto as investigações se concentraram nos outros suspeitos.
Reabertura do caso após denúncias de abuso
O caso foi reaberto em 2026 após uma ex-enteada de Martônio denunciar que sofreu abusos sexuais dos 11 aos 14 anos. A jovem relatou que o homem a ameaçava constantemente, dizendo que ela seria "a próxima Giovanna" se contasse o que estava acontecendo.
Segundo a delegada Camila Cecconello, atualmente responsável pelo caso, a mãe da jovem também relatou que, quando se relacionava com Martônio, confrontou o homem ao perceber sinais de abuso. Nessa ocasião, Martônio teria confessado: "Você sabe aquele caso de Quatro Barras que eu disse que era testemunha? Eu não sou testemunha, eu fui o autor".
Novas evidências e confissões
Com a reabertura do caso, a polícia ouviu várias ex-companheiras de Martônio. Uma delas revelou que a mulher que era casada com ele em 2006 procurou alertar outras mulheres, dizendo que foi obrigada a limpar a casa para eliminar possíveis provas do crime.
Outra ex-companheira relatou que Martônio confessou detalhes do crime que coincidem com as provas periciais. Segundo esse relato, ele teria atraído Giovanna para dentro de casa sob o pretexto de pegar dinheiro para comprar as rifas, sufocado a menina, cometido violência sexual e depois ocultado o corpo e as roupas em locais diferentes para incriminar terceiros.
Prisão preventiva e investigações em andamento
Martônio foi preso em 19 de fevereiro em Londrina, no norte do Paraná, onde estava residindo. Ele está em prisão preventiva, suspeito de homicídio qualificado, ocultação de cadáver e estupro de vulnerável. Durante seu depoimento à polícia, o homem permaneceu em silêncio.
O advogado Eduardo Caldeira, que defende Martônio, informou que ainda não teve acesso completo ao processo e aguarda para novas manifestações. Além do caso Giovanna, o suspeito também é investigado por crimes sexuais contra outras pessoas.
Testemunha relata deboche do suspeito
Em uma das diligências da reabertura do caso, uma testemunha informou à polícia que Martônio "debochava" das investigações anos após o crime. Segundo o relato, ele se referia aos policiais como "idiotas e tapados", afirmando que "estava tudo na frente deles".
A testemunha também relatou que o homem detalhou como cortou o fio utilizado para amarrar o corpo da vítima de um rolo que possuía em casa, e que durante a diligência policial inicial, segurou o rolo de fio enquanto o policial o examinava, sem que nada fosse percebido.
O caso de Giovanna dos Reis Costa permanece como um dos mais emblemáticos da criminalidade no Paraná, demonstrando como novas tecnologias e persistência investigativa podem trazer justiça mesmo após quase duas décadas.